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Resumen de ponencia
HISTÓRIAS MENORES, VIDAS OUTRAS: AS RE-EXISTÊNCIAS FEMININAS NA HISTORIA LATINO AMERICANA COMO PRINCIPIO ÉTICO.

Grupo de Trabajo CLACSO: Feminismos, resistencias y procesos emancipatorios

*Losandro Antonio Tedeschi



Este texto compõe-se por possibilidades outras de pensar a participação feminina na história Latino Americana em seus desdobramentos na constituição de movimentos de resistências. Opta por um recorte que apresenta o feminino através de breves existências ou linhas de fuga que emergem e ousam contra o poder para criar formas de vidas outras, tomadas como espaço de enunciação, em que se constroem estratégias de fuga e deixam vestígios nos processos de constituição de uma nova história das mulheres na América Latina. Busco, nesse sentido, examinar nas fissuras do possível a existência do feminino como força, potência subterrânea, subalterna, marginal, infame, fronteiriça caraterizada por fluxos contraditórios, divergentes. Corpos outros, desejos outros, novas audácias, modos outros de ser e de lutar que proliferam e resistem à imposição de um discurso único sobre a história por meio da escrita, da arte, da transgressão, da loucura, do pensamento crítico e da ação política. Histórias que podemos chamar de “menores”, de desviantes, mas com força para produzir espaços de liberdade; forças potencializadoras de outras formas de existência, capazes de compor formas de vida outra; mulheres que agem em vez de apenas reagir às práticas instituídas, e que se configuram como forças que modificam o curso dos processos estabelecidos – pela produtividade e positividade das práticas de resistência nos modos de invenção de si e nas lutas sociais latino americanas. Neste texto busco refletir e mostrar, que as práticas de resistências feministas em ação na história latino-americana instauram fissuras, abalos nos modos de existência instituídos e potencializam outros modos de vida. O desafio consiste em encontrar mecanismos para ampliar cada vez mais as ressonâncias desses abalos, dessas fissuras, - reflexo de uma arte revolucionária, inventiva - construindo novas formas de pensar e viver como um importante marco de re-existência.
As mulheres, através das práticas de resistência que colocam em movimento na história, criam, cada qual a sua maneira, modos singulares de existências. Ao escreverem/viverem sua história - sendo ousadas e recatadas, desbocadas e pudicas, sexuais e etéreas - passam a produzir um devir político ou, como diz Deleuze (2012) um pensamento “nômade”, aberto às conexões, um pensamento que se desvia dos processos de subjetivação manipulantes e ditantes de regras e condutas do patriarcado. São gestos e movimentos que produzem novos modos de se conduzirem, de governarem a si mesmas, que criam estratégias e práticas de resistências como ato político. Ao pensarem, agirem e se posicionarem no mundo de outra maneira, as mulheres se inventam no imprevisível de fugas-intensivas.
Livres, essas mulheres procuram escapar das maquinarias que o poder aponta em cada passagem da história; desfazem as amarras engessantes que impedem o pensar e a ação de corpos diferentes. Elas produzem, no próprio desvio, uma maneira de seguir adiante sem serem capturadas; elas transformam esse desvio em uma aprendizagem potente para suas vidas; elas criam existências possíveis. São mulheres consideradas “infames”, são corpos insubmissos que abalam, como afirma Segato (2012), as velhas práticas da colonialidade do gênero.
Os corpos que transgridem o espaço normativo, que transgridem a razão colonial, tornam-se problema para a sociedade patriarcal. Na rua, na esquina, na feira, nos jornais, na revolução, na passeata esses corpos abalam, escandalizam; são segundo Butler (2000) “corpos que pesam”; são corpos desviados, transgressores e racializados que questionam estruturas profundamente enraizadas porque não aceitam uma vida que quer confinar.
Por isso na história das mulheres - lugar de inscrição dos acontecimentos - o corpo é, “o lugar prático de controle social” (FOUCAULT, 1988, p. 15) e também o lugar/espaço de resistência, lugar de mando, de influência. O corpo da prostituta, da escrava, da louca, da histérica, da mendiga, da solteirona eram, por um lado, o lugar de ataque por parte das investidas do poder, já que, portadoras do exótico, seu corpo revelava outra performance, a exuberância do prazer, do desvio mental, da outra cor, dos afloramentos do desejo, gestos e sinais que fugiam ao controle normalizador; por outro lado, o corpo dessas mulheres também representava a possibilidade de mudança, a capacidade de desestruturar e abalar os ultrapassados códigos morais que sustentavam as relações de gênero.
Ainda hoje o corpo das mulheres continua sendo na história, por um lado, o espaço que ocupa, suas fronteiras, as intervenções que nele se operam, a imagem e as narrativas que dele se produz, as “máquinas de guerra” que nele tentam se conectar, os sentidos que nele marcam, os silêncios que por ele falam, os vestígios. Por outro lado, ao resistirem ao enquadramento do mandato patriarcal o corpo das mulheres potencializa um conjunto de forças capazes de provocar mudanças extraordinárias nos modos de existência instituídos.
Diante disso, podemos dizer que, em muitos momentos, a história das mulheres foi construída pelo não factual, pelo não dito. Logo, o conhecimento histórico feminino se situa em um território aquém do instituído. É no interior desse território, desse “espaço outro”, que as práticas femininas, enquanto acontecimento, permanentemente atualizam forças, lutas, embates e contradições entre diferentes interesses e significados. O acontecimento, diz Deleuze (1998) é sempre produzido “por corpos que se entrechocam, se cortam ou se penetram, a carne a espada; mas tal efeito não é da ordem dos corpos, batalha impassível, incorporal, impenetrável, que domina sua própria realização e domina sua efetuação” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 78). Então as práticas femininas são acontecimento porque há nelas “uma parte que sua realização não basta para realizar, um devir em si mesmo que está sempre, a um só tempo, nos esperando e nos precedendo como uma terceira pessoa do infinitivo, uma quarta pessoa do singular” (DELEUZE; PARNET, 1998, p. 78). Ou seja, as práticas femininas, enquanto acontecimento, são movimento, devir e trazem consigo a possibilidade de mudança nos sistemas de pensamento hegemônicos.
Então, podemos dizer que na história das mulheres as resistências foram fundamentais para a criação de espaços outros para viver, pensar; espaços ainda não capturados pelos dispositivos de saber-poder. As resistências das mulheres, neste caso, são um gesto político, uma potência política que, do interior das relações de poder, nasce como potência de criação da vida – um desafio aos sistemas instituídos. Afirmamos isso porque pensamos com Foucault (2008) que a “política não é nada mais, nada menos do que o que nasce com a resistência a governamentalidade, a primeira sublevação, o primeiro enfrentamento” (FOUCAULT, 2008, p. 287). E a potência política das práticas de resistência que as mulheres desenvolvem tem a força de desestabilizar as linhas estabelecidas, de deslocar as relações, liberando a vida para que se organize cada vez mais em novas formas e com novas práticas.






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* Tedeschi
Fundação Universidade Federal da Grande Dourados. Faculdade de Ciências Humanas. Universidade Federal da Grande Dourados - FCH/UFGD. Dourados-MS, Brasil