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Resumen de ponencia
EPISTEMOLOGIAS DO SUL NO PENSAMENTO DE MANOEL BOMFIM: ELEMENTOS PARA PENSAR A EDUCAÇÃO BRASILEIRA

*Kattia Amin Kattia



A proposta apresentada a esta conferência pretende desenvolver uma reflexão crítica acerca do discurso das ciências sociais versado à luz das Epistemologias do Sul e os seus usos na educação. Toma-se como objeto de análise e discussão os estudos de Manoel Bomfim referentes aos problemas situados em torno da educação brasileira, no período da Primeira República, tendo como pano de fundo, o cenário de atraso social e econômico, sob o qual estavam imersos os países latino americanos, entre eles o Brasil. Busca-se como objetivo principal repercutir as ideias de colonialidade presentes na formação do pensamento social brasileiro associadas à educação. Convém esclarecer que a crença na ciência como um corpo de ideias e de pressupostos explicativos da realidade humana, tem sido bastante questionada quanto à sua utilidade no campo social. Seja em razão dos interesses e perspectivas atribuídas aos sujeitos em seus diferentes contextos de vida, ou em razão da necessidade de responder às inquietações relacionadas à existência humana. Constituído de um saber rigorosamente organizado e objetivamente comprovado, o conhecimento científico é concebido como aquele capaz de responder as inquietudes por meio de critérios irrefutáveis demarcados no limite de suas assertivas. Tem sido assim o percurso da ciência. De outra parte, a ciência é formada por um conjunto de códigos material e simbólico, criados pelo homem no intuito de representar e, ao mesmo tempo, projetar sobre si e sobre o mundo um tipo particular de linguagem. Isso por sua vez, implica na confiabilidade dos critérios científicos em face às questões humanas. Nas ciências sociais o epicentro do conhecimento está situado no conjunto das relações entre o indivíduo e o advento de uma sociedade marcadamente complexa em suas formas de produzir e de pensar a realidade social. O pensamento especulativo e religioso cede lugar à racionalidade científica das ciências naturais tornando-se pressuposto e alicerce da estruturação do método nas ciências sociais. Fruto de uma sociedade eclodida das transformações tecnológicas e margeada pelas desigualdades, as ciências sociais têm o seu marco histórico de surgimento o século XIX, notadamente com a consolidação do mundo moderno. Nesse contexto de transição, o positivismo emerge como um modelo teórico das ciências sociais. Nele, o quanto maior for a objetividade científica e menor o contato do cientista com o objeto em observação, maior são as possibilidades de confiabilidade do conhecimento produzido. Essa premissa considera a ciência um modelo de conhecimento aparentemente neutro destituído de juízo de valor, uma vez que nega as influências do processo histórico sobre a ocorrência dos fenômenos sociais. Com tais características, percebe-se nessa construção a escolha por modelos teóricos traduzidos no distanciamento entre pesquisador/sujeito e objeto pesquisado. Dito isso, é oportuno destacar a noção implícita de neutralidade presente nos princípios norteadores do método positivista. Nesse cenário, há uma questão de fundo: como compreender a vida social quando se trata de propor um método de pesquisa delineado na imparcialidade e na objetividade científica? Note-se, que nas ciências sociais as leis científicas emergem guiadas por uma visão objetiva e imparcial do conhecimento. É importante mencionar que o movimento positivista remonta do século XVI e nasce das entranhas empiristas das ciências naturais. A busca da verdade é, por assim dizer, um construto de ideias e projeções sobre uma determinada investigação e apoiada nos procedimentos investigativos adotados pelas ciências naturais. Dada às considerações tangentes as assertivas da filosofia positivista é oportuno ressaltar que as ciências sociais, tanto quanto aos demais campos científicos, reúnem uma vasta associação de elementos metodológicos derivados de contextos historicamente determinados (DEMO, 2014). Nesse contexto em que a vida social torna-se objeto de investigação, Augusto Comte (2000), expoente da filosofia positivista, advoga que todo modo de inventividade deverá submeter-se à observação. Tais considerações apontam para a necessidade de outras reflexões epistemológicas que possam fazer frente às verdades incontestes do conhecimento científico. Do ponto de vista epistêmico, pretende-se aqui discutir sob quais perspectivas o conhecimento científico se constitui em um pensamento social dominante, considerando a aproximação entre os paradigmas das ciências sociais e a educação moderna. Assim, num cenário desagregador provocado por um novo modelo de sociedade, a educação das massas, sob o rigor da ciência, seria o meio pelo qual a ordem moral seria reestabelecida. Tal perspectiva acena para um ideal de mundo e de homem adaptável e subserviente aos paradigmas emergentes do capitalismo moderno, travestido de uma cientificidade aparentemente pedagógica que adentram nos processos formais de educação impondo sua visão eurocêntrica. Este contexto não só trouxe novidades em termos de progresso econômico às sociedades colonizadas da América Latina, como acendeu as luzes para o completo abandono em que se encontrava a educação do povo. Observa-se uma tendência gerada em torno da ciência e da instrução pública como mecanismos relevantes para a construção de uma nação livre das amarras do “atraso” econômico acerca do qual estava submetida a sociedade brasileira. O fascínio exercido pela modernidade sobre o pensamento conservador torna-se, nesse contexto, o principal argumento em defesa de um país para que avance rumo ao desenvolvimento do progresso social. Para tanto, se fazia necessário investir na educação das massas como forma de adequar os indivíduos ao ideal político filosófico de matriz republicana. Aventada a possibilidade de adotar o cientificismo pedagógico como pressuposto para a realização das práticas educacionais, chama a nossa atenção, o fato desse mesmo cientificismo negar as diferenças culturais e identitárias entre as nações, em particular, as latino americanas em nome de uma pretensa unidade nacional. Ou então, como justificar as benesses do progresso científico utilizando-se de um discurso ideológico de dominação e exclusão, corporificado no aprofundamento da desigualdade social, econômica, cultural e étnico-racial, como aquela imposta às nações colonizadas da América Latina, entre os séculos XVIII e XIX. Em resposta aos paradigmas acima apontados, as Epistemologias do Sul (BOAVENTURA; MENESES, 2009) consideram a sociedade como manifestação de uma pluralidade cultural, de forma a reconhecer os diferentes saberes situados na experiência dos coletivos locais. A escolha metodológica adotada para proceder com esta reflexão será uma cuidadosa revisão da bibliografia que aborda como tema central, as formas materializadas e simbólicas de como as teorias colonialistas foram forjadas no interior do processo de colonização cultural e econômica das nações europeias, perante as nações latinoamericanas a partir da obra bomfiniana – A América Latina: males de origem. A análise de conteúdo tem um papel relevante na busca de elementos conceituais que servirão de base analítica para as discussões crítico-reflexivas a que se propõem este trabalho. No intuito de estabelecer nexos entre as bases epistêmicas das ciências sociais em sua interface com a proposta de unidade nacional por meio da educação, duas perguntas são oportunas: Que outras epistemologias permitem refletir sobre os processos sociais de colonialidade? De que forma os estudos de Manoel Bomfim contribuem para o processo de desnaturalização do ideário social dominante subjacente à formação do pensamento educacional brasileiro?




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* Kattia
Kattia de Jesus Amin Athayde Figueiredo KJAAF. Brasília, Brasil