Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
MULHERES MARAJOARAS: BREVE RETRATO DA VIOLÊNCIA DE GÊNERO

*Sandra Job



No final da década de 20, do século passado, Virginia Woolf, ao ser convidada para proferir uma palestra, depara-se com uma realidade que a leva concluir, entre outras, conclusões, que a mulher precisa de um teto todo seu para produzir literatura em igualdade com os homens escritores. Ela, portanto, alertava a sociedade para a condição social da mulher branca, classe média/alta, assim como trazia para o seio dessa mesma sociedade o papel social e as limitações impostas à mulher. Da mesma forma, quando, em 1949, Simone de Beauvoir lança O segundo sexo, esta autora, entre outros aspectos, denuncia a construção social do papel da mulher em um mundo feito por homens e para os homens. Anos depois desses dois marcos literários para o feminismo no mundo ocidental, para a sociedade, academia, qual/is o/s impacto/s das discussões acerca de gêneros e temas afins na vida de mulheres no Brasil?
Partindo desse questionamento amplo e geral, foi pensado e proposto o projeto de pesquisa “O ponto G”, coordenado pela Profa. Dra. Sandra Maria Job, e desenvolvido na Universidade Federal do Pará, Campus Universitário do Marajó – Breves, em 2018. O intuito dessa pesquisa é buscar, através de respostas obtidas a partir de um questionário semiestruturado, respostas para o como a mulher, no século XXI entende e vive sua sexualidade, o prazer sexual, entre outras. O questionário contém catorze itens a serem respondidos com sim ou não e, em alguns casos com justificativas. Quanto aos sujeitos da pesquisa, o projeto visa a mulheres escolhidas aleatoriamente, sendo que, destas, em média, cem (100) devem ser da região norte, cem (100) do sul e cem (100) do sudeste com a finalidade de posterior comparação das respostas.
Neste contexto, o objetivo dessa ponencia é uma análise parcial da pesquisa, ainda em curso. O intuito é trazer para esta ponencia uma leitura das respostas obtidas em vinte (20) questionários respondidos por mulheres que vivem no Arquipélago do Marajó das florestas. Nestes, levar-se-á em consideração, para análise, os seguintes itens respondidos: 1) idade; 2) raça; 3) grau de instrução; 4) violência de gênero. Ou seja, o foco será violência de gênero, a partir dos relatos dos sujeitos da pesquisa. Busca-se com essa análise averiguar 1) identificar os agressores e a relação do mesmo com a vítima; 2) idade média das vítimas; 3) se houve consequências legais para os agressores; 4) consequências emocionais à vítima e, em particular, 5) discorrer, ainda que de forma breve, sobre as propostas do feminismo negro e indígena, buscando identificar no mesmo aspectos que venham ao encontro das necessidades sociais, humanas que as possíveis entrevistadas deixam entrever. Além, disso, mediante as análises obtidas, 6) verificar a existência (ou não) e eficácia (ou não) de políticas públicas para as mulheres ribeirinhas que vivem no Marajó das florestas que, devido a peculiaridades geográficas, históricas, culturais próprias da região deveriam receber da sociedade e do governo olhares específicos e direcionados a elas.
Para desenvolver a discussão aqui proposta, portanto, conta-se com uma pesquisa que envolve vinte sujeitos de pesquisa que, de alguma forma, foram vítimas de violência de gênero, moradoras no Arquipélago do Marajó das florestas, no Pará. As entrevistas partem de um questionário que, mediante cada pergunta, as participantes respondiam com dados pessoais (mas não nome). Algumas perguntas, porém, foram gravadas em áudio, através de aparelho celular. Tais gravações foram transcritas e, posteriormente, analisadas. Também subsidiou as discussões teorias feministas. Das análises obtidas constatou-se, entre outros aspectos que, nenhuma das entrevistas tiveram assistência psicológica, pois nem se tivessem procurado teriam encontrado na maior cidade do Marajó das florestas, Breves. Ou seja, embora a violência de gênero na região seja um caso alarmante, dado o alto número de ocorrências, a situação da mulher marajoara, em geral, não tem sido alvo de preocupação por parte da sociedade, nem de poder público no Brasil.




......................

* Job
Universidade Federal do Pará UFPA. BREVES, Brasil