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Resumen de ponencia
Movimento feminista e de mulheres no Brasil: narrativas e diferenças, a partir dos anos de 1970.

*Leticia Alves Maione



O presente trabalho trata da formação do movimento de mulheres e feminista no contexto brasileiro, em um período que parte dos anos de 1970.Por um lado,estudiosas de história do feminismo e das mulheres tem apontado as desigualdades e os olhares equivocados resultado de pesquisas que exploram categorias para falar de sujeitos universalizantes.Por outro,são menos ousadas as críticas nesse mesmo ambito de estudo que realizam um trabalho criterioso em relação às diversas periodizações elaboradas para analisar os processos históricos vividos pelas mulheres em seus contextos e relações(DETTI, 2004).Portanto,especial cuidado e empenho é colocado para pensar o diferente significado da década de 1970 para os movimentos de mulheres,no Brasil,buscando estar atenta e consciente aos riscos que narrativas únicas e adventos históricos,universalmente interpretados,podem produzir ao analisar movimentos sociais e sujeitos sociais e políticos.
O caminho percorrido para chegar até este tema surge a partir de leituras e questionamentos ocorridos ao cursar a disciplina de Historiografia Feminista,no curso de pós-graduação em Estudos das Mulheres e Gênero,da Universidade de Bolonha.Entender a dinâmica das relações entre as forças sociais que formaram o feminismo,desmitificando a idéia que reduz este movimento a uma grande e única origem,buscando também contribuir para percursos descolonizadores do pensamento e da história feminista inspira a autora deste ensaio.As condições de tal produção de conhecimento são atravessadas também pela sua experiência no interior do movimento feminista, na cidade do Rio de Janeiro,e também refletem o (des)encontro de gerações e correntes feministas no período atual,sendo parte importante e engatilhadora deste processo de pesquisa.
Com tal intuito,buscou-se confrontar,principalmente,três autoras de grande contribuição ao campo de estudos feministas,e que valorizam a fonte testemunhal e a memória em suas metodologias.Em dois desses casos,as suas produções de conhecimento enquanto pesquisadoras dialogaram,explícita e publicamente,com a sua implicação direta na construção do movimento de mulheres,fazendo com que se dedicassem à necessidade de reconstrução e registro das questões,acontecimentos e percursos dos setores de mulheres parte do movimento social e político correspondente a essas sujeitas.
Nas décadas de 1980 e 1990,Cynthia Andersen Sarti desenvolve investigações que até hoje são referências para a história do movimento de mulheres e feminista, no Brasil.Os estudos de Sarti são conhecidos por se concentrarem na análise em torno da conformação própria do movimento de mulheres e feminista brasileiro, a partir do contexto da ditadura militar (1964-1984),do modelo de modernização excludente nos anos de 1970 e da desigualdade histórica que marca a sociedade brasileira. Mas igualmente interessante é descobrir nas obras de Sarti(1994; 1988) como a participação na militância feminista ajuda a dar forma a sua investigação sobre mulheres pobres e moradoras da periferia de São Paulo.A desconfiança à universalidade que o discurso feminista emprega,nesse período,lhe empurra para a realização de um trabalho sobre a distinta condição social de mulheres que escapasse do seu próprio grupo referencial.É assim que Sarti(2004) lança mão de duas categorias integrantes do movimento naquela época, que mostram também a forte inspiração marxista que ajuda a construir o protagonismo da mulher trabalhadora no movimento brasileiro.São estas as mulheres pertencentes à militância partidária de esquerda, e as mulheres das associações de bairro e lutas territoriais.
Enquanto isso,Lélia Gonzalez,antrópologa,historiadora,militante do Movimento Negro Unificado e uma das prepulsoras do movimento feminista negro– ambos em formação na época,também chama atenção para a realidade brasileira e latino-americana do movimento de mulheres,apontando como o eurocentrismo e o racismo afetam as dinâmicas,os olhares e as relações desse movimento.Gonzalez(1985) trabalha a existência de três correntes do movimento: a popular,a político-partidária e a feminista.A corrente popular,por um lado,coincide com a categoria posta por Sarti em relação às mulheres que são levadas a se organizar, principalmente,por questões de sobrevivência familiar,de precarização e informalidade no trabalho.Entretando,segundo Lélia,tal corrente apaga a identidade de suas integrantes,que seriam “empurradas” no interior do movimento de mulheres para tal categoria,omitindo e negligenciando a questão racial,central a vida das mulheres,e uma das bases do sistema de opressão que atinge a região.
De notória importância para o pensamento da história das mulheres no Brasil,Joana Maria Pedro(2006) formulou a hipótese de um movimento feminista brasileiro marcado pelo conflito que acessamos,sobretudo, através das diferentes narrativas de suas correntes. De acordo com a autora,essas se definiram,por um lado,pelas militantes político-partidárias que apostaram no Ano Internacional da Mulher promovido pela Organização das Nações Unidas, em 1975,como mito fundacional do movimento e; por outro,pela corrente feminista que reclama a existência de uma tradição desde a década de 1940, através da atuação de intelectuais que, inspiradas nos movimentos feministas estadunidense e europeu, formaram grupos de reflexão, traduziram obras de autoras feministas desses países e estavam à frente do Conselho Nacional da Mulher(1949).A análise de Pedro foi especialmente útil para esse trabalho que buscou entender como as nuances trazidas pelas distintas atuações de mulheres,que formaram e inspiraram o atual movimento feminista e de mulheres brasileiro,são parte de disputas sociais e de poder.Ao mesmo tempo,tais disputas falam sobre as formas historiográficas e a produção dinâmica e constante de conhecimento que os trabalhos sobre a história do movimento feminista implica(OTTO, 2004).
Diante do exposto acima, abre-se espaço para a apresentação de algumas reflexões que o trabalho tem produzido.A despeito de não raramente o movimento de Maio de 1968 ser apontado como um processo de ressonância mundial,é fundamental atentar para hipóteses que podem gerar categorias homogeneizantes.Os depoimentos e experiências de mulheres, nesse período,no Brasil, nos mostram que a perspectiva política das mulheres é construída com base em suas condições materiais,que no caso brasileiro,são de extrema desigualdade e, sobretudo,se apoiam na desigualdade de raça e classe (SARTI,1988).As repercussões e modernizações de um 68 vivenciado em sociedades que experimentam o Estado de bem-estar social,como o são em muitas partes da Europa,são mais sentidos por mulheres de camadas médias e brancas, no Brasil, e é longínquo ao universo da maioria das mulheres brasileiras,moradoras de periferias na década de 1970, enfocadas nas lutas por uma infra-estrutura urbana básica. Este e outros impasses têm sido apresentados pelos estudos sobre os movimentos de mulheres e feminista.Além disso, como aponta Pedro(2006),as disputas resultaram na produção de dicotomias como, por exemplo, “quem são as verdadeiras feministas?”,ou “lutas gerais e lutas específicas” que expressam o embate e as interseções vivenciadas pelas mulheres com outros movimentos da esquerda,mas também outras dimensões fundamentais de sua identidade.Essa constitui parte da tarefa da historiografia feminista,que interpela a história positivista de fontes documentais e batalhas únicas, coletadas por homens brancos letrados e ocidentais para os mesmos.Assim como a história das mulheres, a história do movimento feminista é desafiada a encontrar pistas e traços da presença e vida das mulheres.Por isso, questionar os tipos de fontes também é interrogar se as mesmas servem para registrar a diversidade da presença de mulheres.
Contrastar autoras de distintas abordagens e trajetórias político-intelecuais nos revela a riqueza de trabalhar confrontando as diferentes categorias e sujeitas que compõem os movimentos de mulheres e as relações sociais entre essas.Evidenciando a perspectiva eurocêntrica e racista que é cega à condição racial das mulheres no Brasil e na América Latina,como fez a crítica de Gonzalez, é outra maneira de ampliar as formas de contar a história dos movimentos de mulheres.Ademais,ao longo desta reflexão, vemos como a desigualdade e o conflito é apresentado de diversas maneiras pelas autoras, auxiliando as mesmas a definir as várias correntes de tal movimento.Como próximos passos,pretende-se debruçar mais sobre as categorias de conflito e desigualdade para pensar a história das mulheres e as questões referentes à uma outra periodização para investigar a história que aqui indagamos,sobre a conformação do movimento feminista e de mulheres no Brasil.
Referências:
DETTI, Tommaso. Tra storia delle donne e “storia generale”: le avventure della periodizzazione In Innesti. Donne e genere nella storia sociale. Giulia Calvi (a cura di). Roma, Viella, p. 293-307, 2004.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano. Revista Isis Internacional nº.8, out. 1988.
OTTO, Claricia. O feminismo no Brasil: suas múltiplas faces. In: Estudos feministas, v.12, n. 2, 2004, p. 237-253.
PEDRO, Joana Maria. Narrativas fundadoras do feminismo: poderes e conflitos (1970-1978). Rev. Bras. Hist. [online]. 2006, vol.26, n.52, pp.249-272. SARTI, Cynthia. A família como espelho: um estudo sobre a moral dos pobres. Campinas: Autores Associados.1996. SARTI, Cynthia. O feminismo brasileiro desde os anos 1970: revisitando uma trajetória. Revista de Estudos Feministas, Rio de Janeiro, ano/vol. 12, n. 2, p. 35-50, maio-ago. 2004. SARTI, Cynthia. Feminismo no Brasil: uma trajetória particular. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, n. 34, p. 38-47,1988.




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* Alves Maione
Universidad de Oviedo/Universitá di Bologna UNIOVI/UNIBO. Oviedo/Bologna, España