Para iniciar a discussão sobre inovação e desigualdade cabe aludir ao contexto da globalização, que remete a um conjunto de transformações econômicas, políticas, sociais, tecnológicas e culturais a nível mundial (Campos; Canavezes, 2007). Os efeitos contemplam expansão de direitos, inflexões na democracia, também de oportunidades econômicas, liberdades políticas e poderes sociais da sociedade/indivíduos (SEN, 2010). As desigualdades estão presentes na dimensão do conhecimento e acesso à tecnologia, nas riquezas, poderes e oportunidades.
Diante do contexto brasileiro, onde dados apontam que as desigualdades voltam a se expandir no país, especialmente em virtude de um cenário de inovação tecnológica e implicações econômicas e onde milhões de brasileiros não possuem colocação no mercado, principal fator dessa desigualdade. Em contraponto a isso, é possível perceber uma parcela da sociedade – mercado, empreendedores, gestores – preocupados em resolver os problemas sociais e utilizando do termo inovação social, mas, de fato acaba-se atentando mais ao fator de retorno monetário do que da solução. O empreendedor no âmbito do mercado é aquele que possui visão, apropria-se de mecanismos para inovar e de fato constrói e realiza ações para materializar ideias. O conceito de empreendedor, enfatizado no século XX e XXI, em sua essência, é um agente de mudança e fomentador de transformação social (Dees, 2001).
Alguns aspectos da discussão sobre interfaces da inovação, levam em consideração o acesso a essa e a reinvenção de desigualdades no Brasil contemporâneo. Na exposição são utilizados os dados de diagnósticos a propósito de desigualdades, razão por que resulta em questionamento que engloba a inovação social, a partir do contexto em que se prioriza a ênfase de solucionar problemas. Todavia, usualmente as pessoas que se pressupõe beneficiar, não possuem condições de capital financeiro ou social e cultural para obter o respectivo acesso às inovações tecnológicas.
Inicialmente destaca-se que o contexto da inovação pode ser radical ou incremental. De acordo com Freeman (1988) a inovação radical é o desenvolvimento e inserção de um novo produto ou processo - no caso, que esse não exista - representando uma ruptura estrutural com o padrão tecnológico até então existente. A inovação pode ser incremental, sendo qualquer tipo de melhoria em um produto ou processo que já existe. A partir do contexto de movimento histórico da sociedade surge a oportunidade de inovações sociais, que podem ser definidas pelo conhecimento aplicado a necessidades sociais, que conta com a participação de atores para gerar soluções novas e perduráveis para determinados grupos sociais (Bignetti, 2011).
As desigualdades são nomeadas no plural por que entendidas de modo multidimensional (Therborn, 2001) e como um processo que origina situações de diferenciação social. Na concepção de Weber (1991) são manifestação de três dimensões de estratificação social. A econômica, que define a classe diante do setor econômico. A social, que define os grupos sociais e suas relações de poder. A política, que origina os partidos.
Os estudos sobre desigualdade social analisam a distância entre os setores mais ricos e mais pobres da população, tomando como principal indicador a renda dos indivíduos ou famílias. A renda individual, sem dúvida, constitui um critério importante de desigualdade social, mas é só uma dimensão da mesma. Igualmente importante, e até certo ponto mais decisiva, é a desigual distribuição de bens e serviços públicos. Não poder contar com proteção policial, não ter acesso à rede de eletricidade, água, telefone ou esgoto e não dispor, nas proximidades da residência, de serviços médicos ou escolas geram consequências dramáticas sobre a qualidade de vida das pessoas (Sorj, 2003).
Aa desigualdades podem ser fruto da interação entre sujeitos sociais diante das oportunidades e relações de poder (Salgado, 2010). Pode-se entende-la como uma situação de acesso desproporcional aquilo que, de fato, deveria ser essencial.
A desigualdade social no Brasil vem sendo acentuada, esse diagnostico provem do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) que apresenta o IDH de 2015, em que o Brasil ocupa o 79º lugar entre 188 nações no ranking. O dado é constituído dos indicadores de educação, renda e saúde. O país caiu 19 posições diante do contexto econômico, proporcionando maior desigualdade entre classes sociais.
A partir desses dados, abre-se a discussão do acesso a inovação social no Brasil, no contexto de que essas soluções que buscam resolver problemas sociais, podem apresentar um custo alto para a população beneficiada. Com o propósito de pensar em inovação social com um custo simbólico, o que muitas vezes, é difícil partindo do mercado e o olhar empreendedor, que pelo seu âmbito, é forçado a pensar no monetário constantemente e desenvolvendo um valor que pode extrapolar a realidade para o acesso. Um país, onde o principal fator que baixou seu IDH foi a ausência de mecanismos de distribuição de renda. E ser o 2° país com o maior índice de pessoas que opinam que a distribuição de renda é injusta no seu país; no ano de 2015 – com uma análise de ambos os sexos – o indicador faz parte das estatísticas de percepção de desigualdade e conflito, desenvolvida pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL).
Quando o empreendedor desenvolve sua inovação social, em alguns critérios é obrigado a se adequar ao mercado. E talvez, o fato de torna-la acessível pode ficar em segundo plano, principalmente se esse possui investidores, que estão mais preocupados com o retorno diante dessa inovação que, de fato, sua proposta de valor e a entrega para sociedade. Pode-se observar, por exemplo, algumas inovações voltadas para pessoas deficientes, que possuem um valor alto, que muitas famílias não podem acessar, pois possuem outros gastos como prioridade. Essas inovações, devido às desigualdades atendem as necessidades de uma determinada parcela, se os demais não possuem condições para adquirir a inovação, não existe um proposito de solução ou amenização desse problema para todo o grupo.
Através do conceito de inovação social e as questões abordadas, podemos integrar o conceito de Capital Social, em que Bourdieu apresenta-o como “o conjunto de recursos, efetivos ou potenciais, relacionados com a posse de uma rede durável de relações, mais ou menos institucionalizadas, de interconhecimento e de reconhecimento” (BOURDIEU, 1980, p. 2). Esse acaba por integrar as instituições, as relações, as atitudes e os valores que regem as interações entre as pessoas e contribuem para a coesão e o desenvolvimento social. A partir disso, gera-se o repensar um senso de responsabilidade dos atores em relação à solidariedade. O autor ainda aborda sobre o capital - econômico, cultural ou simbólico - e que se forma uma rede de atores, cada um com o seu capital. Pressupõe, a partir desse conceito, que o capital social pode influenciar na inovação social, tendo em vista, que os atores se unem com suas bagagens para abraçar uma solução.
Ao transcorrer sobre o tema, cabe abordar as inovações tecnológicas e as sociais. As inovações tecnológicas podem apresentar uma evolução para a sociedade, mas até quando essa pode ser positiva. Douglas Rushkoff apresenta que “o desenvolvimento a toda velocidade do capitalismo digital tem um impacto devastador sobre o meio ambiente e a população mais pobre em escala global”. Diante dessa questão, busca-se dados empíricos sobre esse impacto devastador, e é possível encontrar pesquisas, por exemplo, afirmando que até 2030 muitas profissões serão substituídas por tecnologias robóticas. Mas, há necessidade de questionar, o que acontecerá com as pessoas que perderão seu emprego, a resposta de alguns inovadores seria a adaptação a outra profissão. Caso, uma pessoa não tenha as oportunidades para essa mudança, ela não poderá se adequar como esperado, ou seja, uma maior desigualdade social, a qual, a população mais pobre acaba por sofrer as consequências.
Em um cenário como o citado anteriormente no país, uma forma mais acessível diante das inovações sociais é desejável - já que seu propósito de solucionar determinado problema da sociedade, essa seria para sociedade, seria o momento de pensar mais com o conceito social, já que se utiliza do termo, e torna-la acessível para que todos possam se beneficiar – e que essa desigualdade seja amenizada, pelo menos nesse âmbito. Tendo em vista, que o que se espera para o futuro, inclusive o Brasil, é cada vez mais tecnologias ou soluções inovadoras. Além disso, é necessário a reflexão sobre o futuro, com todas as inovações que vem para facilitar o trabalho humano, precisamos pensar como os indivíduos serão alocados, de forma que não impactará no incremento de mais desigualdade social, já existente.
BIGNETTI, L. P. As inovações sociais: uma incursão por ideias, tendências e focos de pesquisa. Ciências Sociais Unisinos, v. 47, n. 1, 2011.
BOURDIEU, P. Le capital social: notes provisoires. Actes de la Recherche en Sciences Sociales. n. 31, 1980.
CAMPOS, L; CANAVEZES, S. Introdução à Globalização. Repositório Universidade de Évora, Editora Instituto Bento de Jesus Caraça, 2007.
DEES, J. G. The Meaning Social Entrepreneur. Durham, NC: Duke University, 2001
FREEMAN, C. Introduction. In: DOSI, G. et al., eds. Technical Change and Economic Theory. London : Pinter, 1988.
SALGADO, J. Las desigualdades desde una perspectiva de complejidad: hacia um epistemología teórico-normativa del conflicto social. Revista de Paz y Conflictos, Madrid, n. 2, p.44-58, 2010.
SEN, A. Desenvolvimento como liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SORJ, B.
[email protected]. Rio de Janeiro, Zahar, 2003.
THERBORN, G. Globalização e desigualdade: questões de conceituação esclarecimento. Sociologias, Porto Alegre, ano 3, n. 6, p. 122-169, jul./dez. 2001.
WEBER, M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. 1991