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Resumen de ponencia
MANIFESTAÇÕES PÚBLICAS DE 2013 A 2016 E SEUS IMPACTOS NA POLÍTICA BRASILEIRA

*Kiane Follmann Da Silva



As manifestações de rua ocorridas em 2013, marcaram o início de um novo ciclo político no Brasil. Impuseram uma crítica ao sistema político, bem como demonstraram a insatisfação da classe média em razão da política econômica e social implantada durante os governos do Partido dos Trabalhadores (PT).
A classe média alta do país transitou nesse período de uma aversão ao sistema político para uma oposição declarada ao projeto de governo desenvolvido. Um dos desdobramentos dessa mudança foi a ascensão da direita conservadora nesta camada social que contribuiu para a formação de grupos liberais e/ou conservadores que estavam presentes nas manifestações públicas de 2013 e, principalmente, nas de 2015 e 2016.
Desse modo, o presente trabalho compõem o desenvolvimento da pesquisa de dissertação que busca analisar o cenário político a partir do ano de 2013, em relação as políticas econômicas e sociais adotadas pelo governo federal. Para compreender os seus impactos na classe média brasileira, e assim estabelecer sua conexão com a ascensão de movimentos de direita presentes nas manifestações públicas de 2013 a 2016.
Durante os governos do Partido do Trabalhadores (PT) ocorreram mudanças consideráveis em função das medidas econômicas e sociais implantadas no país. Algumas das políticas públicas visaram garantir o acesso das camadas populares ao ensino superior, bem como movimentaram a economia, pois houve a implantação de programas de redistribuição de renda, como o Bolsa Família, a expansão do financiamento popular e a política de valorização real do salário mínimo que aumentaram e modificaram sua participação na economia (SINGER, 2012).
A classe média teve seus ganhos achatados principalmente, após a implantação ao longo dos governos petistas de políticas públicas de acesso ao ensino superior, pois atentaram contra os critérios da meritocracia enraizados nesta classe (CAVALCANTE, 2015). As alterações no ingresso ao ensino superior público combinado com as cotas, bolsas para os mais pobres compôs uma política eficiente em razão de garantir o acesso as camadas populares, mas atingiu diretamente a crença de que a “apropriação de capital cultural” seria um lugar naturalmente dedicado à classe média (SOUZA, p. 62, 2016).
Essas mudanças são carregadas de valores simbólicos, pois além da diminuição da desigualdade econômica, proporciona às camadas populares ocupar espaços sociais que anteriormente eram dirigidos somente à classe média. A implantação dos programas governamentais de redistribuição de renda e políticas públicas voltadas ao ensino superior, como salienta Cavalcante, causam “perturbações ideológicas e simbólicas que atingem um modo de vida da classe média”, culminando na revolta da classe, que se apresenta como uma reação as mudanças que acabariam com os seus privilégios (CAVALCANTE, 2015). Essa reação da classe média permeado pelo sentimento de perda de seus privilégios, se respaldou no escândalo do mensalão em 2005. Para manifestar seu descontentamento com o sistema político no país se tem a retomado do discurso anticorrupção. Mas que, na verdade possuiu como pano de fundo a insatisfação da classe em relação aos impactos socioeconômicos sentido nos últimos anos (FIRMINO, 2016).
Desse modo, a insatisfação com a medidas adotadas pelo governo federal, tanto nos mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva (Lula) e Dilma Roussef, se tornou mais evidente. Para se reeleger, a presidente adotou um discurso voltado a classe trabalhadora e aos movimentos sindicais, sociais e populares, propondo dar continuidade do modelo que garantiu a elevação da renda do trabalho e inclusão social.
No ano de 2013, as jornadas de junho marcaram o começo da luta política atual. Inicialmente, foram propostas pelo Movimento Passe Livre (MVP) motivadas pelo aumento das passagens de ônibus, sendo criminalizadas pela rede televisiva e pela polícia militar. Conforme ganharam adesão das demais categorias sociais, foram infladas com outras pautas e reivindicações passaram a ser amplamente divulgadas em todos os meios de comunicação, mas a pauta inicial foi sendo ressignificada por um discurso anticorrupção e contra o sistema político brasileiro.
Para o autor Jesse de Souza, as manifestações de Junho de 2013 são marcadas pela virada da “hegemonia ideológica até então dominante e das altas taxas de aprovação aos presidentes dos governos petistas” (SOUZA, 2016, p.87). Além de que os ataques da mídia ao PT, a partir disso pode se considerar como ataques a política de inclusão das classes populares, bem como: “o combate seletivo a corrupção pela imprensa e seus aliados no aparelho de Estado foi mero pretexto para combater uma política redistributiva” (SOUZA, 2016, p.85).
A partir destas manifestações públicas, se abriu a caixa de pandora para o surgimento de movimentos conservadores e de direita, com pautas liberais que convocaram marchas de caráter cívico. Sendo estes: Vem pra Rua (VPR), Movimento Brasil Livre (MBL) e Revoltados Online (ROL). O VPR surgiu em setembro de 2013, após as manifestações ocorridas em junho e o MBL em 2014, logo após o fim do segundo turno das eleições presidenciais de 2014. Já o Revoltados Online existia antes a estas manifestações, mas a partir de 2010 voltou-se para a política.
Segundo, levantamento feito por Firmino seria possível afirmar que os participantes dos protestos convocados pelo VPR e MBL, possuíam um perfil político-ideológico específico, em geral branco, com alta escolaridade e renda considerável, bem como demonstraram alto índice de rejeição aos partidos políticos e movimentos sociais com base social popular (FIRMINO, 2016). Até as manifestações nas ruas parecem reproduzir uma determinada estrutura de representatividade política, marcada pela supremacia de homens brancos, com condições financeiras elevadas e escolarizados.
As marchas feitas que levantaram as bandeiras “FORA PT”, “FORA DILMA” demonstraram a indignação com a corrupção e o sistema político, mas uma pesquisa realizada pelos professores Pablo Ortellado e Ester Solano durante o protesto do dia 12 de abril de 2015 revelou que a maioria concorda com as seguintes afirmações: “Cotas nas universidades geram mais racismo” (70,90%) e “O Bolsa Família só financia preguiçoso” (60,40%), bem como, outro levantamento feito no mesmo dia, sobre quais ações do governo afetaram negativamente sua vida: 44,5% mencionaram o Bolsa Família, 43,5% o auxílio reclusão e 35,6% as cotas raciais nas universidades públicas. (ORTELLADO; SOLANO, 2015)
Portando o “Fora Dilma” e “Fora PT”, são embutidas de outros significados, como relata Tatagiba (2015, p.210): “O “Fora PT” tem ainda outro fundamento: as políticas sociais do governo voltadas à inclusão das classes C e D”. A implantação das políticas sociais que beneficiaram a camada popular corroboraram com a ruptura da classe média com o governo petista, pois julgava ser detentora dos privilégio por natureza.
As políticas econômicas adotadas pelo governo, combinado com as manifestações públicas de 2013, resultaram rupturas nas bases de apoio e alianças políticas sendo o cenário das eleições presidências em 2014. “É necessário mostrar como nossa outra classe do privilégio, a classe média e suas frações conservadoras dominantes, foi arregimentada e desenvolveu um “novo orgulho de ser de direita”, antes inexistente no Brasil” (SOUZA, p.54, 2016).
A pesquisa em desenvolvimento se deterá a análise do surgimento, movimentações políticas e públicas do Movimento Brasil Livre, em razão da sua atuação no cenário político brasileiro, e principalmente por ter organizado os protestos públicos pela renúncia ou abertura do processo de impeachment de Dilma Roussef em 2015/2016. Dessa forma, através do Facebook e Youtube se busca elucidar o conteúdo ideológico de seu discurso em relação as políticas econômicas e sociais desenvolvidas ao longo dos anos dos governos petistas.
Além disso, identificar suas aproximações ideológicas do movimento com as camadas sociais que permitiram sua entrada no jogo político. A partir da análise de sua composição social, procura-se estabelecer a dinâmica e a conexão existente entre discurso do MBL e insatisfação da classe média com a política adotada pelo governo federal, que contribuíram para a ascensão da direita no Brasil.

CAVALCANTE, Sávio Machado. Reprodução social e Revolta política da classe média no Brasil recente. Caxambu. Minas Gerais. 2015. 39º Encontro Anual da ANPOCS. Disponível em Acesso em: 14 jul.2018.
_____. Classe Média e Conservadorismo liberal. Direita, volver! : o retorno da direita e o ciclo político brasileiro. São Paulo, p 177-196. agos 2015. Disponível em: . Acesso em: 14 jul.2018.
FIRMINO, Gustavo Casasanta. Conservadorismo liberal e classes médias: uma análise do “Vem Pra Rua” e do “Movimento Brasil Livre”. 2016.
ORTELLADO, Pablo; SOLANO, Esther (orgs.). Pesquisa com os participantes da manifestação do dia 12 de abril de 2015 sobre confiança no sistema político e fontes de informação. Disponível em: < https://gpopai.usp.br/pesquisa/120415/> Acesso em: 14 jul.2018.
SINGER, André. Os sentidos do lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
SOUZA, Jessé de. “O ovo da serpente: as manifestações de junho de 2013 e a construção da base popular do golpe”. In: A radiografia do golpe. São Paulo, Leya Editora. 2016.
TATAGIBA, Luciana; T.T; Chaves, Ana Claudia. Protestos à direita no Brasil (2007-2015). Revista Direita, volver!: o retorno da direita e o ciclo político brasileiro. São Paulo, p. 197-212, ago. 2015. Disponível em . Acesso em: 14 jul.2018




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* Follmann Da Silva
UNIVERSIDADE FEDERAL DA FRONTEIRA SUL UFFS. ERECHIM, Brasil