Um dos principais efeitos do progresso tecnológico é a submissão das pessoas e do meio ambiente às ameaças. Desastres podem ser oriundos deste cenário, onde ameaças como a pobreza em massa, a concentração de riqueza, o crescimento do nacionalismo, do fundamentalismo religioso e das crises econômicas, por exemplo, pode resultar em guerras e catástrofes ecológicas e tecnológicas. Ao contrário do que se pensava na sociedade moderna, a geração de novos conhecimentos e de desenvolvimento não trouxe um maior controle dos riscos. No conceito da sociedade de risco, as ameaças sociais, políticas, econômicas e individuais estão escapando dos mecanismos existentes para manter a proteção da população.
Dentro da sociedade de risco, o indivíduo torna-se um ser reflexivo, que se deparando com suas próprias ações e omissões, passa a refletir e criticar racionalmente sobre si, a respeito dos efeitos das ações no passado, sobre as situações atuais e a possibilidade de ameaças futuras. O cenário de reconceituação das interações entre sociedade, ciência e tecnologia, onde a atenção aos riscos prepondera sobre os pretensos benefícios, resulta na tomada de consciência por parte do público, com a finalidade do aparecimento de mecanismos para minimizar os efeitos de viver num estado de incerteza. Os estudos sobre percepção de risco têm evoluído para auxiliar as análises elaboradas em vários campos do conhecimento, levando-se em conta que com os contextos reflexivos constituídos pelos impactos da perspectiva do risco, novos padrões cognitivos se formam, orientando as tomadas de decisões, desde as mais amplas no âmbito institucional às mais cotidianas na vida das pessoas.
A percepção de risco é um fenômeno que se processa com a concorrência da autopercepção que por sua vez está integrada a um determinado contexto coletivo que abrange a perspectiva comportamental, associada também aos fatores pessoais relacionados à capacidade da formulação cognitiva, aos aspectos afetivos e biológicos e as possibilidades de leitura e de interação com o ambiente externo. Neste moderno cenário social de análise de risco, existe o confronto produzido pelos estudos tradicionais e as teorias que questionam o paradigma do ator racional, colocando em evidência horizontes mais amplos de debate no campo institucional, além de elementos individuais de cunho psíquico.
Ao se perceberem como parte de uma sociedade e se tornarem conscientes de que evoluem juntamente com o progresso desta, as pessoas compreenderão que suas vidas não estão inevitavelmente preestabelecidas pela lógica às vezes cruel do desenvolvimento, mesmo estando expostas e condicionadas ao aumento do uso da tecnologia em seu convívio.
A sociedade de risco suscita a necessidade de um rearranjo da política que não propagaria conspirações, ou crises, mas uma modificação da própria sociedade moderna. As instituições políticas como parlamentos, partidos, sindicatos coexistirão com práticas políticas cotidianas, caracterizadas por uma individualização dos conflitos e interesses. Tal individualização não seria sinônimo de isolamento ou solidão, mas processos em que os cidadãos produziriam suas próprias demandas. A subpolítica é considerada como subsistemas políticos compostos por grupos profissionais e ocupacionais. Estes agentes colaborarão como sujeitos coletivos e sociais, assim como individualmente. A subpolítica é uma maneira alternativa e complementar de rearranjar o sistema político, através do compartilhamento do poder com coletivos e indivíduos diversos.
Localizada a 170 quilômetros da capital Rio de Janeiro, Rio das Ostras era um município com boa qualidade de vida, apesar de possuir pouca infraestrutura, segundo a opnião da maioria de seus cidadãos que somavam cerca de 20 mil habitantes no início da década de 90. Com belas paisagens de praias e montanhas, e perto de outras cidades turísticas, tornou-se o destino escolhido por vários visitantes.
Situada na região do estado onde atualmente se encontra a maior parte das indústrias petrolíferas instaladas no país, a partir desta mesma década a cidade passou a receber arrecadações de royalties e impostos, que em 2008 elevaram o município ao 4º PIB per capita do estado e 22º do Brasil, o que deveria resultar em um padrão de vida para os habitantes comparável aos países desenvolvidos. Mas a cidade experimentou um crescimento populacional descomunal, tendo uma estimativa atual de 140 mil habitantes, que sem os devidos investimentos dos poderes públicos, veio infelizmente acompanhado por inúmeros problemas.
O Brasil experimentou crescimento econômico na primeira década, mas está mergulhado em uma crise originada principalmente pela corrupção de agentes públicos por grandes empreiteiras e na má aplicação de recursos. Investimentos insuficientes em infra-estrutura, altos impostos, desemprego elevado e déficit nas contas públicas impedem que o país recupere a saúde de sua economia. O estado do Rio de Janeiro passa por uma crise ainda mais grave, com atraso de salário dos servidores e intervenção das forças armadas. Em um cenário ainda mais delicado está Rio das Ostras, devido também à crise na industria petrolífera.
O Bairro Âncora, o mais populoso de Rio das Ostras, tem cerca de 40 mil habitantes, situados em sua maioria nas classes de menor poder aquisitivo e sofrem drasticamente com o descaso das instituições públicas. O município agiu com negligencia quando aprovou o loteamento e não controlou sua ocupação irregular. Isto porque, grande parte do Âncora está localizada na área de inundação do Rio Jundiá, principal afluente do Rio das Ostras, que em épocas de chuvas intensas, atinge grandes áreas do bairro.
Muitas casas na âncora estão localizadas em áreas suscetíveis a deslizamentos de terra, causados pela escavações sem controle, pelo descarte de lixo e pela ausência de dispositivos adequados de drenagem e dos efluentes sanitários, que afeta a estbilidade do solo. Outro componente que eleva muito a ameaça de deslizamento de massas é o lixo jogado nos terrenos e nas encostas.
A maioria das casas do bairro não possui rede de água, de esgoto, de drenagem e pavimentação. Ingestão, aspiração e contato com água contaminada levam a uma série de doenças causadas por organismos patogênicos. O Rio Jundia é o principal afluente do Rio das Ostras, que atravessa grande parte da cidade e deságua em praias freqüentadas por centenas de milhares de pessoas todos os anos. O sistema de saúde do município costuma estar saturado, principalmente durante o verão.
No entanto, os maiores desastres que ocorrem no bairro são humanos, de natureza social. A omissão dos governos em relação à falta de infra-estrutura e políticas públicas no Âncora empurra para o bairro uma parcela mais vulnerável da população, que não tem condições financeiras para habitar outras regiões. A estagnação econômica e social, o agravamento da desigualdade socioeconômica, o aumento do custo de vida e da especulação financeira, o clima de insegurança coletiva e o descrédito nas elites políticas agravam as convulsões sociais, aumentando drasticamente a criminalidade.
O assalto a mão armada a estabelecimentos, residências, veículos e pedestres aumentou assustadoramente, muitas vezes com vítimas fatais. Devido a grande vulnerabilidade social o consumo de drogas explode nas comunidades e na região. Com isso, o tráfico se consolidou na Âncora massivamente, atraindo a atenção de uma das maiores facções do país. Muito mais do que desastres de origem natural ou tecnológica, as tragédias humanas de origem natural matam dezenas de pessoas por ano no Bairro Âncora, além de causar danos físicos e mentais aos moradores.
A sociedade assustada protesta contra a escalada do crime e da violência, enquanto tenta encontrar alternativas solidárias que preencham a lacuna deixada pelo Estado. Iniciativas individuais são tomadas para sensibilizar os cidadãos. As associações são uma maneira de reduzir a vulnerabilidade e aumentar a resiliência de uma comunidade. Elas têm o objetivo de promover a socialização dos indivíduos, promovendo reprodução, integração e transformação social, fomentando a identidade cultural e alavancando o desenvolvimento econômico. Corais, igrejas e cooperativas formam um tipo de associação conhecida como capital social. No Âncora, existem mais de cem igrejas que desempenham um papel fundamental na socialização dos habitantes. A associação de moradores também é extremamente importante, pois representa um local onde a comunidade pode levar suas demandas, bem como outras atividades.
Os movimentos sociais têm a capacidade de alterar a realidade social, no plano cultural, no sentido de lutar contra as relações de poder e dominação, questionando, renomeando e redesenhando entendimentos sobre uma determinada realidade social. A Associação de Capoeira e Cultura Raízes de Bamba tem como objetivo promover a retirada das crianças da ociosidade, trabalhando com pessoas carentes, dando-lhes a oportunidade de praticar esportes e cultura artística. Outro exemplo de associação que desempenha um papel fundamental é o "Movimente-se Bairro Âncora". Este movimento social visa criar e desenvolver atividades socioculturais para impactar e promover o desenvolvimento dos moradores do bairro, formando alianças com a iniciativa pública e privada, com o objetivo de impactar e trazer mudanças e melhorias para todos os Âncora. Além de desenvolver atividades culturais das mais diversas, promove reuniões frequentes com os moradores que buscando identificar suas demandas, tentando alcançá-las através de campanhas solidárias e com órgãos públicos.
Percebendo tais benefícios, a Coordenadoria de Defesa Civil concebeu o projeto de um prédio onde todas essas associações pudessem desenvolver suas atividades e reuniões, bem como a troca de experiências, além de receber cursos de qualificação profissional e inclusão digital e também um Núcleo Comunitário de Defesa Civil, uma das formas mais eficazes de reduzir a vulnerabilidade.