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Resumen de ponencia
Mídia e Política: Um estudo sobre o tratamento das mídias brasileira e chinesa em relação ao Banco dos BRICS

*Tuíla Regina Leal Lins Ignácio Da Costa



Nas Relações Internacionais, o campo dos estudos culturais, mais especificamente dos estudos da mídia, tem sido, de forma geral, relegado à marginalidade. Isso se dá pois o mainstream que domina a área privilegia certos tipos de abordagens e temáticas, valorizando aspectos econômicos, políticos e militares e colocando temas culturais como uma problemática específica ou pouco relevante para o campo. Contrapondo essa visão corrente, Lessa e Suppo afirmam que "a dimensão cultural é parte fundamental das Relações Internacionais" (LESSA; SUPPO, 2007, p.224). Sendo assim, ao observar o desenvolvimento histórico e as condições tecnológicas que se apresentam na atualidade, estudar esse espaço pouco explorado nas Relações Internacionais torna-se imprescindível.
Na esteira desse desenvolvimento tecnológico, a televisão, o rádio, os jornais e os livros - canais tradicionais de comunicação - ganharam uma nova expressão frente às mídias digitais. O processo de monopolização é um conhecido antigo do sistema em que vivemos, mas sua intensificação nas últimas décadas teve repercussões em todos os setores da economia. A indústria da comunicação não estaria isenta de sofrer as consequências de tal concentração e vimos surgir os grandes conglomerados midiáticos.
A mercantilização do conhecimento como um produto de consumo associado com a condensação da produção de informação nas mãos de poucos tem uma peculiaridade: poder de influência e convencimento. Deste modo, o estudo da mídia nas Relações Internacionais está estreitamente ligado ao estudo dos arranjos de influência que permeiam a inserção dos Estados no cenário político externo (Borelli, 2014).
A digitalização dos canais tradicionais de mídia ou, como denomina Moraes (2013), as “infotelecomunicações” nos fazem questionar sobre qual a importância que a mídia nacional adquiri na atualidade, além de indagar sobre o quão inclusiva e democrática a mídia contemporânea pode de fato ser. Uma das tendências observadas nesse processo é o crescimento vertiginoso da oferta de produtos midiáticos em meio digital. Entretanto, diferente do que pode parecer à primeira vista, não se trata de um movimento que garanta a democratização ao acesso das informações. De acordo com Moraes (2013), tal crescimento se realiza essencialmente sob controle e a partir dos interesses de aumento da lucratividade do pequeno grupo de megacompanhias das telecomunicações. Nesse processo, grupos de alcance nacional e regional estabelecem alianças estratégicas com as gigantes transnacionais, o que aprofunda o processo de monopolização e inviabiliza, ou pelo menos dificulta, que haja de fato um processo de inclusão e democratização na difusão e acesso à informação.
O domínio da comunicação latino-americana fica por conta dos quatro maiores conglomerados midiáticos da região, que são: Globo (Brasil), Televisa (México), Cisneiros (Venezuela) e Clarín (Argentina). Os números dos monopólios revelados por Dênis de Moraes (2013) são impressionantes: juntos, retêm 60% do faturamento total dos mercados latino-americanos. Para se ter uma ideia dos níveis recordes de concentração, basta notar que o Clarín controla 31% da circulação dos jornais, 40,5% da receita da TV aberta e 23,2% da TV paga; a Globo responde por 16,2% da mídia impressa, 54% da TV aberta e 44% da TV paga; a Televisa e a TV Azteca formam um duopólio, acumulando 69% e 31,37% da TV aberta, respectivamente (MORAES, 2013).
Além disso, em tempos efêmeros, as relações de poder que envolvem o Estado e sua interação com o sistema de produção precisaram ser dinamizadas e adaptadas para a nova etapa de desenvolvimento capitalista, envolvendo um vertiginoso paradigma tecnológico-informacional.
Os conceitos de conexão, informação e interação ganharam novas dimensões sociais com a presença das novas tecnologias de comunicação e informação, é disso que se trata quando falamos de paradigma tecnológico-informacional. Dessa maneira, a acumulação de informação ganha força e complexifica a dinâmica do capitalismo moderno. É errôneo considerar que a introdução da microeletrônica, e todo desenvolvimento de tecnologia que vem com ela, atinge apenas o nível técnico, mas influencia todas as áreas do sistema em que vivemos, afetando desde operações bancárias à educação básica. Dito isto, pode-se considerar que a associação entre novas tecnologias e a rápida difusão de informação modifica a dinâmica do modo de produção, reconfigurando alguns aspectos da relação capital-trabalho (NOAM, 2015).
A importância alcançada pelas mídias a partir do final do século XX, nas esferas econômica, política e cultural, é, portanto, fenômeno de destacada relevância para a compreensão da posição, tratamento e encaminhamento dado a fatos de natureza diversa por parte dos governos, ou para explicar a posição de segmentos da sociedade vis à vis da agenda política dos países. Não é um fenômeno recente, mas que se ampliou enormemente devido à expansão das mídias (internet, redes sociais, telefones móveis, canais de TV por assinatura, IPTV).
No âmbito da política externa dos países, vários estudos seminais demonstraram o peso dos meios de comunicação no destino das questões atinentes a essa esfera. Isso explica, por exemplo, porque, em inúmeros momentos, se observa um total divórcio entre, de um lado, as análises acadêmicas e, de outro lado, os operadores dos governos e os eleitos políticos. Quantos projetos foram condenados ao silêncio, ou ao fracasso, contrariando totalmente as opiniões técnicas, mas em evidente sintonia com a agenda-setting das grandes mídias? Ou, ao contrário, quantas vezes os governos encontraram-se duramente criticados pelas grandes mídias, ou alvos de inclementes campanhas, ao insistirem em posições não aprovadas pelos grandes veículos de comunicação?
A discussão sobre a complexa relação entre o poder político e os meios de comunicação torna-se ainda mais interessante quando transposta para os países de economia periférica e nos quais a oligopolização das grandes mídias, e a presença do capital estrangeiro nesse setor, é inconteste. Esse traço distintivo, confrontado com escolhas e polêmicas políticas relativas a assuntos diversos, torna-se fundamental para a análise da política externa dos países.
Essa é a perspectiva da pesquisa aqui proposta: realizar uma análise comparativa do tratamento atribuído ao grupo dos BRICS, no Brasil e na China, a partir de dois dos mais importantes jornais de ambos os países. Partindo de reportagens de uma representante da mídia nacional brasileira (O Globo) e outra da mídia nacional chinesa (China Daily), este trabalho tem como objetivo refletir sobre o tratamento que é dado à iniciativa, por alguns considerada contra-hegemônica, de criação do Banco dos BRICS. Em outras palavras, refletimos sobre a seguinte pergunta: como as grandes mídias nacionais supracitadas trataram o projeto de criação de um Banco de Desenvolvimento liderado por países emergentes? Partimos da hipótese de que existe uma diferenciação de tratamento entre as mídias nacionais dos dois países, o que expressaria distintos conflitos e interesses de poder.
Para se aproximar de respostas, realizamos uma análise documental, a partir da seleção de reportagens dos meios de comunicação escolhidos, associada à técnica de análise de conteúdo. O recorte temporal delimitado para este trabalho compreendeu o anúncio da criação de um Banco de Desenvolvimento dos BRICS, em março de 2012, até a sua concretização, em julho de 2014.
Do ponto de vista teórico, servimo-nos de uma matriz marxista e gramsciana ao empregarmos os conceitos de poder e resistência, dominância e subordinação, hegemonia e supremacia. Também compartilhamos as visões de Bolaño, Moraes, Britto, Murdock, entre tantos outros, sobre o papel político-social da comunicação e das indústrias culturais na transformação e/ou perpetuação dos aparatos político-ideológicos que sustentam o sistema de produção internacional.




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* Leal Lins Ignácio Da Costa
Programa de Pós-graduação em Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro PPGRI-UERJ. Rio de Janeiro, Brasil