O principal objetivo desse trabalho é o de apresentar a trajetória intelectual e profissional da ensaísta brasileira Gilda de Mello e Souza (1919-2005) O início da trajetória intelectual da autora está situado em um contexto de mudanças sociais que ocorreram no cenário paulista entre as décadas de 1930 e 1940 abrangendo renovações no plano político, econômico, cultural e de gênero. Na esfera das relações de gênero, por exemplo, atrelada a criação da Universidade de São Paulo em 1934, ocorreu, segundo Blay e Lang (2004, p.12), a entrada consistente de mulheres de vários segmentos da classe média no ensino superior. A partir desse índice constitutivo da mudança pode-se compreender como o ingresso no ensino superior propiciou às mulheres dessa geração novas possibilidades e rearranjos em seus destinos pessoais e em suas carreiras que até então, encontravam-se circunscritas nos limites consagrados pela família ou pela igreja. O processo de inserção dessas mulheres em outras esferas, mesmo que ainda marcado por assimetrias e dificuldades no âmbito pessoal e profissional, permitiu que algumas delas pudessem encontrar nesse cenário urbano, que então crescia e se metropolizava, e em instituições como a universidade, uma via legítima de expressão feminina e um elemento problematizador das identidades de gênero (Pontes, 2010).
Um segundo contexto de sua trajetória refere-se ao momento em que a autora, entre os anos de 1950 e 1980, inicia seu percurso acadêmico e seu envolvimento profissional na Universidade de São Paulo, consagrando-se como um importante ensaísta e crítica de arte. Entretanto, apesar do reconhecimento no ambiente intelectual brasileiro, como sugeriu Heloísa Pontes (1998, p.188-190), a trajetória de Gilda foi marcada muitas vezes por certa “marginalidade”. Sofrendo algumas restrições referentes, por exemplo, à divisão do trabalho intelectual, à hierarquia acadêmica, à escolha dos objetos de estudo e à legitimidade das formas de exposição de suas ideais, sua carreira foi marcada por uma série de negociações, ambivalências e uma incessante busca de legitimação e superação frente ao “espiral vertiginoso de angustias e sentimentos de fracasso” que às vezes sentia, como descreveu certa vez ao crítico literário uruguaio Ángel Rama (1926-1983). Contudo, abrindo trilhas para as futuras gerações de mulheres, Gilda foi protagonista, testemunha e remanescente desse cenário de renovação cultural e de acesso do grupo feminino a um ambiente que até então lhe era restrito.
O eixo norteador do trabalho é a entrada de mulheres nos cursos superiores e as dificuldades inicias que tiveram em consolidar suas carreiras, nessa direção, analisamos as negociações e as disputas que travaram em torno dos sentidos sociais e simbólicos de sua posição social naquele espaço. Em um primeiro momento, recuperando o contexto dos anos 1930 até os anos 1950, apresentamos, por meio da análise dos testemunhos, entrevistas e memórias de Gilda alguns debates relativos a questões como, as identidades femininas, a divisão sexual do trabalho e a possibilidade que as mulheres tiveram, com a entrada no ensino superior, de reorientar os papeis para além dos limites que até então lhes eram consagrados. Em um segundo momento, após a defesa de sua tese, A moda no século XIX (1950), e da sua consolidação profissional no ambiente universitário (entre os anos de 1950 e 1980), procuramos explorar algumas pistas já apontadas por autores como Heloisa Pontes (2004; 2006) e por alguns textos que compõe a coletânea Gilda: a paixão pela forma (2007) organizada por Sérgio Miceli e Franklin Mattos, de que a experiência de mudança de valores vivida por essas mulheres durantes os primeiros decênios do século XX são reorganizadas e ganham formalização como assuntos e objetos de investigação de seus trabalhos. Foi o que podemos verificar ser o caso de Gilda que, além de transformar essa experiência como assunto e objeto de seus ensaios.
Quando as mulheres iniciam sua incursão ao domínio do público, das instituições e da ciência, como é o caso de Gilda na universidade, foram muitas vezes censuradas por vários “porta-vozes” do decoro social da época, sobretudo pelo grupo masculino, que carregava um sentido normativo de uma ordem de gênero. A partir de categorias de diferenciação foram julgadas como sendo “portadoras de uma outra lógica, a lógica da esfera doméstica, que poderia poluir a esfera pública”, tipicamente masculina (Corrêa, 2003, p.15). Essa distinção de lógicas de apreensão do mundo social, onde o gênero passa a ser um importante mediador de definição das carreiras, parece ter sido determinante para que seus comportamentos fossem marcados por uma série de constrangimentos e inseguranças nas escolhas e destinos profissionais através, por exemplo, da internalização de impedimentos sociais não formalizados. Essas dificuldades subjetivas e objetivas que estiveram presentes ao longo da construção de suas carreiras, sob a forma de “violência simbólica”, foram um dos princípios do “auto exclusão” do grupo feminino da cena pública (Bourdieu, 2003, p.52).
Mas para além de tornar as histórias visíveis na construção da narrativa histórica de um campo de saber, nos interessa compreender e explorar como a diferença é estabelecida, como ela opera, e como e de que maneira constitui sujeitos que veem e atuam no mundo (Scott, 2012, p. 302) . Para tal, recupera-se a ideia de experiência entendida como “o lugar da formação do sujeito” (Brah, 2006, p. 360), historicizando a ideia de experiência devemos procurar as operações discursivas pelas quais identidades são afirmadas, resistidas ou acatadas, o posicionamento do sujeito em relação aos discursos que vão sendo construídos e seus efeitos, segundo Scott (2012, p.304) não “são indivíduos que tem a experiencia, mas sim os sujeitos que são constituídos pela experiência”.