Esta pesquisa tem por objetivo analisar o advento da “fraude étnico-racial”, como uma transgressão social que perpassa a burla na autodeclaração de raça/cor/etnia, instrumento de reparação designado para garantir a vaga de ingresso reservada por cota racial. Interessam os argumentos acionados pelos autodeclarados negros (pretos/pardos) para justificarem um pertencimento étnico-racial, com relevância para as situações em que os candidatos são autodeclarados negros (pretos/pardos), contudo heteroclassificados como “não negros” pelos membros que compõem a banca de avaliação da Comissão de Aferição de Autodeclaração. Esse advento social desperta interesse para reflexão, no que tange aos tipos de narrativas verbais e/ou não verbais que esses agentes mobilizam com o intuito de se “enquadrarem” enquanto pessoas negras, e, assim, comprovarem a veracidade da autodeclaração, garantindo o direito de ocupar a vaga.
No final do século XX, os movimentos sociais e o movimento negro perceberam uma lacuna no ensino superior do Brasil. Notou-se que um grande segmento social da população brasileira (preta, parda e pobre) não estava inserida no contexto acadêmico. Mediante essa preocupação, intensificaram-se as iniciativas com vista à alteração deste quadro promovendo diversos debates concernentes às políticas de ação afirmativa. O debate girava em torno da adoção de uma política de inclusão social como um instrumento de reparação histórica e no combate ao racismo e o preconceito.
Em razão disso, urge a necessidade de aprofundamento nesse debate, considerando suas variáveis complexas e as conflitantes situações nas quais o indivíduo, não raramente acionando categorias referentes à sua “ancestralidade” quando necessário. Desse modo pretendo apresentar aspectos teórico-metodológicos para a pesquisa a ser desenvolvida na Verificação de Autodeclaração Raça/Cor. Nesse campo, interessam os argumentos acionados pelos autodeclarados negros (pretos/pardos) para justificarem seu pertencimento étnico-racial. Uma análise antropológica se mostra frutífera, no que tange aos tipos narrativas verbais e/ou não verbais que esses candidatos brancos mobilizam com o intuito de se “enquadrarem”, comprovarem a veracidade da autodeclaração e garantir o direito a ocupar a vaga reservada. Estes candidatos estão sendo apontados sob uma nova categoria pelos movimentos sociais: “fraudadores de cotas”.
De acordo com o proposto, com intuito de perceber quais as dimensões do simbólico que ativam as forças imaginativas para burlar a confiança na autodeclaração, uma análise etnográfica destes processos se faz necessária. E, a partir daí, analisar as categorias e os argumentos que estão sendo acionados por esses indivíduos para se autoidentificarem enquanto negros ou pardos. A proposta aqui defendida é para que ampliemos o olhar sobre essas denúncias, considerando esse novo advento social na medida que se torna um fenômeno na medida em que nos permite mergulhar em suas dimensões mais profundas.
Assim sendo, a intenção é trabalhar com a ação ou intenção de fraudar o processo das ações afirmativas e compreender esses exercícios a partir dos sujeitos, ou seja, os candidatos que se utilizam da confiança institucional na autodeclaração para obter um benefício. Também intenciono atentar para as categorias de linguagem elaboram discursivamente o pertencimento étnico-racial, quais mecanismos são utilizados para produzir uma interação social convincente e as intencionalidades reveladas ou não por meio dos discursos, aparências, gestos e silêncios. Do mesmo modo, compreender as concepções e perspectivas das bancas de verificação para identificar os possíveis candidatos.
O trabalho de campo será realizado junto a Comissão de Aferição da Universidade Federal Fluminense, durante o período de vestibulares, onde são observados os candidatos indiscriminadamente, e assim, a perceber como produzem estratégias enunciativas, bem como o regime de corporeidade que organiza as enunciações de pertencimento étnico-racial.