Essa proposta de comunicação oral pretende expor os resultados parciais da pesquisa de mestrado em andamento sobre a organização de mulheres negras no âmbito da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio na cidade de Curitiba durante as décadas de 1940 - 1950. Essa pesquisa pretende dar visibilidade a organização das mulheres negras no pós-abolição através da experiência das sócias da Sociedade Operária 13 de Maio, pretendo contribuir com a historiografia que aborda a história da população negra e em especial das mulheres negras no Brasil e América Latina a partir do seu protagonismo. Não é usual a historiografia abordar os clubes sociais negros no espectro do movimento operário, assim como não é comum a historiografia contemplar a mulher negra dentro das organizações femininas que atuaram nas conquistas civis dos direitos das mulheres. Também dentro do movimento negro não é consenso considerar os clubes sociais negros um espaço importante de militância política na luta antirracista e por melhores condições de vida para a população negra. Nesse sentido, investigarei os desafios enfrentados pela agremiação de mulheres negras durante a ditadura da Era Vargas, as dificuldades das mulheres de inserção no mercado de trabalho formal, a organização das mulheres negras para integrar movimentos sociais pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a busca por estabilidade econômica e ocupar atividades econômicas que não fossem restritas ao serviço doméstico, as estratégias de superação à ausência de políticas públicas voltados à população negra. Quais opções as mulheres negras dispunham em termos de profissão nas décadas de 1940-1950? Qual o perfil das sócias que compunham a agremiação? Qual o grau de formação dessas mulheres? E quais profissões exerciam?
Durante a década de 1940 no livro ata de reuniões da Sociedade Operária Beneficente13 de Maio está registrado a presença de duas agremiações de mulheres: o Grêmio Flor de Maio e o Grêmio Princesa Isabel. O Grêmio Flor de Maio foi citado pela primeira vez em 1940 e o Grêmio Princesa Isabel aparece a partir de 1946, após essa data somente há registro sobre o Grêmio Princesa Isabel, evidenciando que o Grêmio apenas mudou de nome. Mas, por que o Grêmio Flor de Maio passou a chamar-se Princesa Isabel? Por qual motivo as mulheres negras buscaram na Princesa Isabel uma identificação? Isso era comum entre as agremiações de mulheres negras da época? O que a bibliografia já escreveu sobre? Qual a importância da princesa Isabel para o discurso oficial sobre a abolição? Em 1940 há uma campanha entre algumas Sociedades em Curitiba para erguer um monumento em homenagem a Princesa Isabel, a Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio não participa dessa campanha, mas em 1946 quando a princesa Isabel estaria completando 100 anos o grêmio feminino muda de nome, para homenageá-la. Por que às sócias consideraram importante homenagear a princesa Isabel, mesmo 25 anos após sua morte? Mesmo após 57 anos do fim do Império? E após 58 anos da abolição da escravidão? Por que só após quase 60 anos da abolição da escravidão as sócias decidiram homenagear a princesa regente que assinou a Lei Áurea? Por que as sócias não escolheram outro símbolo da abolição para homenagear? Pretendo analisar a escolha do nome da agremiação Flor de Maio e as motivações que levaram as sócias mudar seu nome para Grêmio Princesa Isabel em 1946. Investigarei quais foram os principais projetos idealizados e desenvolvidos por essas mulheres.
Além dos desafios externos ao clube pretendo analisar a constante negociação entre a diretoria feminina com a diretoria masculina da Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio, por mais que as mulheres negras estivessem unidas aos homens negros na luta antirracista, no âmbito interno e externo ao clube, as sócias tinham o desafio de enfrentar o patriarcado dentro e fora do clube. As propostas de ações das sócias ficavam sujeitas a diretoria masculina, quando o Grêmio Flor de Maio, ou o Grêmio Princesa Isabel queriam realizar alguma festa, as diretoras tinham que requerer a aprovação da diretoria masculina e negociar com os mesmos o valor do aluguel dos salões. Por vezes, a diretoria masculina condicionava a liberação do salão mediante a nomeação de um diretor ao cargo da tesouraria da agremiação solicitante, ou a algum outro cargo como orador, ou seja, um diretor da diretoria masculina acumulava cargos em ambas as diretorias, o contrário não ocorria, inclusive o estatuto não permitia que mulheres fizessem parte da diretoria geral. Por outro lado, o espaço da Sociedade permitia a formação da agremiação de mulheres, naquele espaço as sócias poderiam planejar ações voltadas a seus interesses. Em Curitiba durante a década de 40 havia diversas agremiações de mulheres filiadas a clubes, mas não havia alguma entidade registrada e organizada apenas por mulheres, ou mista que aceitasse mulheres nos cargos da diretoria geral. Nesse sentido, pretendo apresentar alguns aspectos das agremiações de mulheres negras que podem rivalizar a abordagem da historiografia sobre movimento operário, clubes sociais negros e organizações de mulheres.