1 INTRODUÇÃO
A falta de reconhecimento, respeito e diálogo com a diversidade cultural e epistemológica existente no mundo, de uma concepção interdisciplinar de Educação, e de ausência da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão contribuem para uma Educação Superior fragmentada e descontextualizada com a realidade social, ambiental, cultural e epistemológica.
No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Pernambuco (IFPE), assumindo o componente curricular Projeto Interdisciplinar , na formação do/a gestor/a ambiental do curso superior em Tecnologia de Gestão Ambiental, construímos, junto com educandos/as, educadores/as e comunidades quilombolas, um projeto interdisciplinar. Além de conteúdos sobre questões ambientais, há o estímulo à troca de saberes com uma comunidade quilombola e o estudo sobre o movimento social quilombola, a questão fundiária, a identidade cultural, as necessidades específicas da comunidade .
O objetivo deste trabalho é de analisar a ecologia dos saberes e a interdisciplinaridade na formação de gestores/as ambientais na relação com os quilombolas do Engenho Siqueira – Rio Formoso – PE. Os objetivos específicos são: analisar a ecologia dos saberes na relação entre o IFPE e o quilombo Engenho Siqueira; analisar a interdisciplinaridade na relação entre o IFPE e o quilombo Engenho Siqueira.
2 REFERENCIAL TEÓRICO
Nesse processo de formação interdisciplinar, os/as educandos/as vão compreendendo que há um tempo diferenciado, onde o sujeito pesquisador aceita dividir sua própria percepção do mundo e dos seres humanos, com respeito ao outro, com a convicção da existência da espera, e com a escuta sensível, como afirma Ivani Fazenda, ao discutir sobre a interdisciplinaridade (1995).
Mauro Guimarães destaca a perspectiva crítica, no processo de formação:
Um caminho percebido por esta perspectiva crítica é o da ampliação do ambiente educativo para além dos muros da escola superando a fragmentação e a dualidade que tradicionalmente não se complementam entre educação formal (escolar) e não-formal. É o processo educativo de a escola estar integrada, interagindo com os movimentos externos a ela, presentes nas comunidades. Isso se contextualiza no processo formativo das ações cotidianas de constituição da realidade próxima, local, na comunidade à qual a escola está inserida, mas sem perder o sentido que esta realidade próxima é influenciada e influi na constituição da realidade global. (GUIMARÃES, 91)
O movimento social do campo por si é um espaço de formação. Apresenta uma cultura diferenciada, valores, linguagens, símbolos, gestos, normas, modos de viver, de se situar no mundo, de lutar. Miguel Arroyo apud Caldart constata o que afirmamos ao contextualizar com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O MST é considerado como educador enquanto movimento social e cultural. Sua presença, suas lutas, sua organização, seus gestos, suas linguagens e imagens são educativas, nos interrogam, chocam e sacodem valores, concepções, imaginários, culturas e estruturas. Constroem novos valores e conhecimentos, nova cultura política. Formam novos sujeitos coletivos. (Arroyo apud Caldart, 2004 : 11)
Nesse processo de formação, temas como questão fundiária e o cotidiano do quilombo, sua relação com o meio ambiente e a cultura, dentre tantos outros, são também trabalhados. O/a educando/a vai construindo e reconstruindo uma nova realidade, observando, sentido e refletindo sobre um contexto bem diferente do que conhecia, compreendendo que muitos sujeitos e comunidades invisibilizados existem de fato. Constatam a existência desses sujeitos, as suas formas de: viver, produzir, fazer cultura e saberes singulares.
Partimos do grupo de pesquisa “Epistemologias alternativas, movimentos sociais, cultura, educação e meio ambiente” e levamos à sala de aula. Por fim, tanto no ensino, na pesquisa, quanto na extensão, realizamos um diálogo intercultural com os movimentos sociais. Nesse processo de formação interdisciplinar, há, concretamente, a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão.
A ciência moderna ocidental deve dialogar, reconhecer e respeitar outras epistemologias. Comungamos das ideias de Boaventura de Sousa Santos ao afirmar que a ecologia dos saberes:
É um conjunto de epistemologias que partem da possibilidade da diversidade e da globalização contra hegemónica e pretendem contribuir para as credibilizar e fortalecer. Assentam em dois pressupostos: 1) não há epistemologias neutras e as que clamam sê-lo são as menos neutras; 2) a reflexão epistemológica deve incidir não nos conhecimentos em abstrato, mas nas práticas de conhecimento e seus impactos noutras práticas sociais. Quando falo de ecologia de saberes, entendo-a como ecologia de práticas de saberes. (SANTOS, 2006 :154)
Destaque-se que nesse encontro intercultural entre o IFPE – instituição de Educação Formal – e o Quilombo Engenho Siqueira – movimento social do campo – existe a possibilidade da existência da ecologia dos saberes.
3 O DIÁLOGO INTERCULTURAL
O IFPE iniciou o diálogo com o quilombo Engenho Siqueira em 2015, no âmbito do ensino, da pesquisa e da extensão. Cinco turmas de Gestão Ambiental realizaram atividades pedagógicas com essa comunidade. Dentre as várias atividades, destacam-se as aulas na escola quilombola e a participação na limpeza das praias do quilombo.
Antes de serem executadas atividades de educação ambiental na comunidade, há um diagnóstico socioambiental e cultural e o diálogo passa a ser permanente, mesmo que também precisem ser efetivados através de ligação telefônica, mensagem via email e/ou whatzzap, devido a distância entre o IFPE e o quilombo.
A poluição do manguezal e das duas praias, com diminuição de espécies nativas é um dos grandes problemas ambientais do quilombo. Uma das causas principais é a utilização em excesso de barco a motor e de pesca predatória, como também veneno jogado no manguezal por usinas e fábrica de palmito. Ressaltamos também os resíduos sólidos, que são queimados e/ou enterrados, por não haver uma coleta permanente pela Prefeitura.
4 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Trata-se de resultados de uma pesquisa-ação, com uma abordagem qualitativa, baseada em Thiollent (2006) e em Santos (2006). Realizamos Observação direta e análise documental, sobretudo do escasso material produzido em relação ao quilombo: “Relatório técnico-científico sobre a comunidade remanescente de quilombo do Engenho Siqueira – Rio Formoso – Pernambuco: Negras memórias da comunidade do Engenho Siqueira, Rio Formoso- Pernambuco” e dissertação de mestrado “A comunidade remanescente de quilombo do Engenho Siqueira: conhecimento tradicional e potencialidade da agroecologia na zona da Mata pernambucana”, autoria de Marli Gondim de Araújo.
5 RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os temas de aula a serem ministradas por nossos/as educandos/as na escola quilombola sempre se repetiam a pedido das lideranças quilombolas e/ou da professora: manguezal e resíduos sólidos. Nossos/as educandos/as sempre ficavam bastante surpreendidos/as com o quanto aquelas crianças sabiam sobre a vida do e no manguezal e toda espécie animal ali existente.
A ludicidade, o diálogo, a interdisciplinaridade eram destaque nessas aulas ministradas por aqueles sujeitos em formação.
A professora da escola sempre ficava encantada com aquelas aulas. Ela afirmou que sempre socializa as aulas ali ministradas com seus pares de um grupo de estudo que faz parte.
Quanto à limpeza das praias, houve participação de nossos/as educandos/as, no dia do meio ambiente, em 05 de junho, junto com toda comunidade quilombola. As lideranças haviam mobilizado desde a Prefeitura e algums secretarias, a Área de proteção Ambiental de Guadalupe, onde o quilombo está situado, a Agência Estadual de Meio Ambiente de Pernambuco (CPRH), dentre outros órgãos.
6 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dentre tantas atividades pedagógicas realizadas por educandas/os do IFPE, as aulas na escola quilombola e a participação na limpeza das praias do quilombo contribuíram para que as/os futuoras/os gestores/as ambientais percebessem a complexidade da realidade, que é composta por uma vasta diversidade epistemológica-social-cultural, já que o mundo é formado por grupos sociais, comunidades, com seus valores, normas, identidade cultural bastante diferenciadas. A ecologia de saberes e a interdisciplinaridade possibilitaram um olhar crítico, sem esvaziamento dos saberes político-pedagógicos, no processo formativo, dessas/es educandas/os. Esses passaram a compreender que as questões ambientais não podem estar separadas das culturais e sociais.
Certamente, o meio ambiente vai bem além do que elas/es vêm aprendendo nos livros. Os sujeitos quilombolas vêm contribuindo bastante para a formação desses/as jovens que estão caminhando nesse processo formativo.
REFERÊNCIAS
ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de. Comunicação e ciência: iniciação á ciência, redação científica e oratória científica. Recife: NUPEEA, 2014.
CALDART, Roseli Salete. Pedagogia do Movimento Sem Terra. 3ª ed. São Paulo: Expresso Popular, 2004.
FAZENDA, Ivani Arantes. História, teoria e pesquisa. 2ª ed. Campinas, SP: Papirus, 1995.
GUIMARÃES, Mauro. Educação ambiental: participação para além dos muros da escola. in: Ministério da Educação, Coordenação Geral de Educação Ambiental: Ministério do Meio Ambiente, Departamento de Educação Ambiental : UNESCO. Vamos cuidar do Brasil: conceitos e práticas em educação ambiental na escola. Brasília, 2007.
SANTOS, Boaventura de Souza. Um discurso sobre as ciências 15ª ed. Colecção histórias e ideias. Porto: Afrontamento, 2007.
SANTOS, B. S. A gramática do tempo: para uma nova cultura. São Paulo: Cortez, 2006.