Nas sociedades que incorporaram as novas tecnologias de informação e comunicação, principalmente a partir do advento da Internet, a maneira como o espaço e o tempo são experimentados mudou significativamente. As atividades econômicas em geral, da produção ao consumo, puderam amparar-se no novo conteúdo técnico do espaço geográfico para conduzir um processo de reestruturação que levou à desconcentração das unidades produtivas, por um lado, e à centralização do controle, por outro. A instantaneidade, como um atributo do espaço-tempo, autoriza um novo comando político e novos usos do território. Neste início do século XXI, nenhuma análise social pode prescindir da imbricação entre o virtual, o imaterial e/ou o informacional com o chamado mundo material. A virtualidade passa a ser um atributo da materialidade, de tal maneira que as ações humanas, incluindo as tradicionais atividades econômicas, estão sendo paradigmaticamente reformuladas. A rapidez dessas mudanças encontra uma de suas formas de expressão nas novas tecnologias de informação e comunicação, cujo uso cresce exponencialmente. Na chamada nova economia, novos conteúdos como a instantaneidade e a sincronização de dados informacionais passaram a assumir um protagonismo inédito, com profundas implicações sobre a expansão do consumo e a incorporação do novo no cotidiano da população. O comércio eletrônico ou e-commerce, como uma atividade que se desdobra das novas tecnologias e as utiliza intensivamente, permite que, mesmo fisicamente separados no espaço, vendedores e compradores de mercadorias possam ser articulados por meio da comunicação virtual. O comércio eletrônico é um fenômeno eminentemente geográfico em suas múltiplas dimensões e escalas. O território, por meio de sua materialidade, infraestrutura e normas, é condição necessária para a sua realização, apesar da dimensão virtual dessa atividade econômica. As desigualdades territoriais, as diferenciações regionais, a hierarquia da rede urbana, as diferentes quantidades e qualidades da infraestrutura de transporte e comunicação, as normas que regulam as ações dos diversos agentes – enfim, as condições técnicas e políticas do território se impõem a um mercado virtual, pois a virtualidade (que também não existe sem o espaço geográfico) é apenas uma de suas dimensões. O comércio eletrônico intensifica a lógica do consumo, mas suas ações não se efetivam à revelia dos lugares, que por suas condições técnicas e políticas impõem ritmos e estratégias diferenciadas à circulação das mercadorias. Mesmo que parte de suas atividades sejam realizadas por meio das redes virtuais, a topologia das empresas de comércio eletrônico revela as contradições da formação socioespacial e da divisão territorial do trabalho vigente, contribuindo para a centralização metropolitana do comando dos fluxos, por um lado, e a desconcentração – nunca homogênea – dos espaços de consumo no território, por outro. Este trabalho objetiva discutir o comércio eletrônico ou e-commerce e sua relação com a logística no território brasileiro, no bojo do aprofundamento da globalização, da reestruturação produtiva e territorial e do surgimento de novas atividades econômicas no território. Para a sua realização, foram realizados os procedimentos de revisão bibliográfica e documental em publicações acadêmicas e de dados periódicos relacionados ao tema; elaboração de uma triz de eventos com datas e local do evento (se nacional ou internacional); discussão dos resultados com base nos referenciais teóricos adotados. A logística será uma variável privilegiada nesta pesquisa, mas de modo não exclusivo, incorporando também na problematização a informação e as finanças. Esta prioridade é necessária porque a imbricação entre comércio eletrônico e logística atualiza a relação histórica entre comércio e circulação, que está na origem da cidade. A circulação é primordial para a realização do comércio eletrônico, que está intensamente associado à moderna logística, principalmente a logística postal. Deste modo, importa compreender como o território é usado pelas empresas de comércio eletrônico, que se valem da logística e da rede de transportes para colocar as suas mercadorias em circulação e alcançar os seus clientes numa trama complexa de localizações. Amparado num sistema de conceitos elaborados por Milton Santos, busca-se compreender o e-commerce como um fenômeno geográfico, amparado em conceitos como: meio técnico-científico-informacional, globalização, divisão territorial do trabalho, uso do território e fluidez territorial. No Brasil, o comércio eletrônico somou um faturamento de R$ 48,8 bilhões em 2016, quase dobrando de tamanho nos últimos quatro anos, segundo a pesquisa webshoppers divulgada pela Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. Esse crescimento, que num país que atravessa um período de recessão econômica se apresenta bastante revelador da mudança nos hábitos de consumo e da tendência às compras em ambiente virtual, vem sendo registrado de maneira exponencial desde 2001, quando a pesquisa teve início. De acordo com os relatórios, somente em 2017 mais de 50 milhões de brasileiros realizou compras no comércio eletrônico ao menos uma vez, número que era de apenas 1,7 milhão de consumidores em 2011, cresceu para 3,4 milhões em 2004, dobrou em 2006 e depois quadruplicou em 2010 ao atingir 23 milhões de pessoas. Desse montante, a região Sudeste do Brasil responde por mais da metade dos consumidores, seguida da região Sul, que somadas abrigam 77,5% da população que comprou pela Internet em 2017. O tíquete médio de cada compra também vem aumentando, passando de R$353 em 2011 para R$418 em 2017. Já os dados sobre formas de pagamento revelam a centralidade da intermediação financeira para esta atividade, uma vez que mais da metade dos compradores do ano de 2017 decidiu por parcelar suas compras entre duas e até doze vezes com a utilização de cartões de crédito. Longe de serem apenas informações quantitativas, esses números apontam para o crescimento vertiginoso do comércio eletrônico no Brasil, para a sua presença no cotidiano da população e para a atualidade e importância do tema de pesquisa. Os resultados já alcançados apontam para a importância da imbricação entre informação, finanças e logística para a realização do comércio eletrônico, com especial destaque para o papel que as estratégias logísticas de circulação e os prazos de entrega possuem para os agentes envolvidos.