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Resumen de ponencia
Andarilhos da Esperança: a organização política da População de Rua brasileira e seus desdobramentos

*Sara Ferreira De Almeida



A existência de mais de 100 mil pessoas vivendo na rua no Brasil é resultado de um sistema de organização da vida cujos elementos fundantes são: o lucro e a propriedade privada; o individualismo e a segregação social. Reações da População de Rua frente a essa realidade levaram à instituição da política pública de defesa de seus direitos em 2009 em todo o território nacional e ao aumento da produção acadêmica em torno de sua organização. Por meio de revisão de literatura, percebeu-se que no campo da Educação, as dissertações e teses não debruçaram sobre os processos de conquista desses direitos buscando entender se a organização política do grupo vem apontando horizontes de superação efetiva dessa condição que afeta sobremaneira a vida dos sujeitos ou se tende à reciclagem da política que reforça a dependência de indivíduos que vivem na rua aos precários aparatos destinados ao atendimento de necessidades básicas, como é o caso: do Centro de Referência Especializado de Assistência Social; de organizações religiosas que ofertam alimentação e doação de vestimentas, além de equipamentos voltados ao acolhimento noturno para quem não goza do direito à moradia como Albergues e Casas de Passagem. O estudo que aqui se apresenta enfrentou essa lacuna, esquadrinhando os processos educativos emergentes na prática social gestada nas movimentações políticas da População de Rua e apontando os rumos de suas ações estratégicas. O percurso metodológico foi construído em dois momentos. O primeiro seguiu os pressupostos da Filosofia da Libertação que possibilitou a análise da narrativa de militantes do Fórum da População em Situação de Rua e do Movimento Nacional da População de Rua de Campinas, cidade do interior de São Paulo. Esses/as lutadores/as compartilharam suas vivências da infância à vida adulta e dessa ao engajamento político, possibilitando a compreensão de que a vida na rua desumaniza e cria o substrato para humanizar. Verificou-se nessas trajetórias que a luta política se desdobra no campo prático de maneiras distintas que foram classificadas como: Prática Política para, com e da População de Rua. Cada uma dessas práticas educa seus sujeitos que podem se tornar, no processo, representantes e apoiadores da rua. Essas categorias foram levantadas sob o aporte da concepção de política e educação de Enrique Dussel e Paulo Freire que defendem a voz dos sujeitos vitimados como ferramenta essencial aos processos de institucionalização da luta política como terreno da emancipação e da transformação radical da ordem vigente. Essa premissa orientou o segundo percurso metodológico sustentado pela Sistematização de Experiências, adotada no estudo como procedimento de coleta e análise de dados e como meio à superação da totalização da ciência hegemônica sobre o conhecimento popular. Adotar essa estratégia permitiu a análise da luta política empreendida pelo Fórum da População de Rua de São Carlos/SP no período de fevereiro de 2016 a janeiro de 2017. Notas de campo, memórias pessoais, atas dos encontros mensais, imagens fotográficas, entrevistas e rodas de conversa foram fontes de registro e coleta dos dados. A conclusão coletiva da investigação proporcionou a defesa de que na prática de luta política protagonizada por quem tem trajetória de rua e seus apoiadores é produzida uma narrativa e conhecimentos capazes de perfazer um referencial próprio dessa experiência. A sistematização da teoria da ação subjacente à luta política protagonizada pela População de Rua criou um escopo conceitual capaz de contribuir com a educação de sujeitos que, ao lutarem, afirmaram-se criadores de processos de transformação da realidade e não agentes da manutenção de políticas que em nada contribuem para a real superação dos problemas enfrentados por quem convive historicamente com a negação de direitos fundamentais no Brasil, além de dar pistas à construção de uma práxis científica que cultivou processos de desprendimento do domínio da totalização do saber acadêmico sobre o popular.




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* Ferreira De Almeida
Universidade Federal de Viçosa UFV. Viçosa, Brasil