Há qualquer coisa de paradoxal nas relações culturais entre o Brasil e os Estados Unidos. De um lado, é intensa a exposição do público nacional às manifestações da cultura norte-americana, em suas mais variadas formas: música, cinema, literatura, esporte... Vinda até nós por canais de todo tipo – livros, jornais, revistas, rádio e televisão, internet – a massa de informações que temos sobre a economia e a política dos Estados Unidos, seus modos de vida, os ritos de seu sistema judiciário é alimentada também pela interação direta que muitos brasileiros mantêm, regular ou esporadicamente, com aquele país no exercício de atividades econômicas, acadêmicas, ou como turistas... E não devemos esquecer o contingente, bastante expressivo, de brasileiros que residem ou residiram naquele país como emigrantes.
Por outro lado, é notável entre nós a carência de estudos sérios sobre os Estados Unidos. Alguns jornais mantêm correspondentes em Nova York ou Washington, mas o espaço que abrem para suas matérias é reduzido. Poucos artigos de fundo, poucos livros, escasso debate. Sabemos muitas coisas sobre o grande país do Norte, mas os elementos de informação de que dispomos não se organizam em conjuntos estruturados e significativos. No lugar deles o que encontramos no mais das vezes são estereótipos, positivos ou negativos. Embora nos pareça familiar, conhecemos muito pouco os Estados Unidos.
Paradoxo? Não exatamente. A irreflexão se explica, em grande medida pelo sentimento de proximidade que a sobrecarga de informações nos provoca. Consumidor obrigado, e quase sempre insaciável, de sons e imagens vindas de lá, o cidadão comum corre o risco de reter mais facilmente na memória episódios da história norteamericana do que fatos marcantes do nosso passado. A sensação de familiaridade é tão forte que o espanto não se produz, a dúvida, que é a mãe do conhecimento, não chega a brotar.
Em outro plano, esse (des)conhecimento particular tem a ver com a acentuada assimetria que existe entre as duas sociedades. Contamos com muitas informações sobre os Estados Unidos, mas não as que escolhemos, pois em geral nos limitamos ao papel de receptores mais ou menos passivos. Idêntica postura molda nossa percepção do lugar ocupado por esse país no cenário internacional. Observadores distantes dos sucessos (muitos) e insucessos (alguns) que marcam historicamente a trajetória dos Estados Unidos no grande palco da política mundial, a imagem que fazemos de seu papel nesse campo é alimentada no mais das vezes por informações e argumentos produzidos nos vastos e densos circuitos de comunicação (jornalística e acadêmica) que constituem um dos trunfos desse país no relacionamento com seus pares.
E não é só isso: em um movimento especular, com muita frequência usamos os Estados Unidos como modelo, espelho no qual nos miramos – para identificar nossas características próprias, medir nossas insuficiências, e definir a figura do ser coletivo em que gostaríamos de nos transformar.
Do outro lado, a situação é inversa. O público norteamericano ignora quase tudo sobre o Brasil – ou mesmo a América Latina, mas a pesquisa sobre o País e sobre a região é rica, resultando muitas vezes em estudos de excelente qualidade. Há muito, ela deu origem a campos diferenciados de atividade acadêmica – Brazilian e Latin American Studies – que agregam centros de pesquisa e ensino, veículos especializados de divulgação, e associações científicas próprias, algumas delas de grande porte e vitalidade. O interesse do público em geral é quase nulo, mas os Estados Unidos contam com uma comunidade rica de especialistas que conhecem muito bem a América Latina. O problema é que tendem analisá-la com categorias próprias à sua cultura e à sua sociedade – o que gera uma forma de (des)conhecimento diferente, mas não menos grave.
Entre nós, porém, essa situação vem se alterando nos últimos anos. A assimilação acrítica de conteúdos culturais provenientes dos Estados Unidos continua tão forte quanto antes, mas os indícios são claros de que começa a despontar nos circuitos acadêmicos um interesse novo nesse país, como tema de investigação. Esta tendência se expressa na publicação recente de obras importantes de autores nacionais, na constituição de centros de estudos específicos, e no desenvolvimento de projetos de pesquisa, individuais e coletivos, sobre diferentes aspectos da política e da sociedade norte-americanas.
Nos últimos anos essa tendência tem sido reforçada pela atividade sistemática desenvolvida no contexto do INCT-INEU, e pelo trabalho de muitos outros colegas, inseridos em inúmeras instituições no país.
O objetivo da proposta é traçar um quadro geral dos estudos sobre os Estados Unidos no Brasil – breve histórico, tendências de desenvolvimento e situação presente -- salientando a contribuição do INCT-INEU (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos Sobre os Estados Unidos), rede de pesquisa envolvendo mais de uma dezena de universidades e cerca de 80 investigadores, criada em 2009, com apoio de instituições de fomento científico do governo brasileiro.