Desenvolvemos no presente trabalho uma reflexão sobre a importância da esperança – entendida como afeto e autoafeto, tal como formulado por Ernst Bloch – para os movimentos sociais. Embora a esperança seja uma faceta subterrânea dos movimentos sociais, buscamos demonstrar que ela é o princípio, o ponto arquimédico que sustenta e dá vida ao movimento social.
Em geral, a esperança é, quando muito, mencionada de forma rápida e ou indireta nas literaturas dedicadas ao estudo de movimentos sociais, tanto em nível empírico quanto teórico. E, quando mencionada, é quase sempre como um elemento secundário, mágico, irracional ou pré-racional. Ainda não encontramos nenhuma reflexão que se detenha específica e exaustivamente na discussão sobre o imbricamento entre esperança e movimentos sociais. O que é curioso, tendo em vista que os movimentos sociais são organizações em que os indivíduos coletivamente buscam por algo que ainda-não-é, ainda não existe e cujo o desejo é concretizar na realidade.
Desde o início há, nos movimentos sociais, uma visceral vinculação com o futuro através de projeções, desejos, expectativas de fazer ser o que ainda não existe, e esse é o principal combustível que coloca o movimento em movimento. Portanto, é possível afirmar que não se faz movimento social sem esperança. Logo, estudar movimentos sociais, teorizar os movimentos sociais, sem ter em conta a variável esperança, nos parece problemático. Nesse sentido, nosso objetivo é realizar uma reflexão teórica introdutória acerca da importância da esperança para os movimentos sociais. Para tal empresa reflexiva elegemos como principal referencial teórico o filósofo Ernst Bloch, especificamente sua magnum opus, O Princípio Esperança, e elegemos Axel Honneth como interlocutor privilegiado.
Para a nossa proposta entendemos ser promissor estabelecer um diálogo mediador entre Ernst Bloch e Axel Honneth antes de introduzir o repertório conceitual blochiano na reflexão sobre os movimentos sociais. Cremos que entre esses dois autores, cujas produções estão separadas por algumas décadas, existam afinidades eletivas. Em certa medida isso pode parecer algo improvável, uma vez que Bloch está situado na primeira geração da Escola de Frankfurt, ainda muito ligado ao marxismo, e Honneth pertence e é o principal expoente contemporâneo da Teoria Crítica, sem dúvida, herdeira da Escola de Frankfurt, porém, já bastante distante do materialismo-dialético.
Conforme Michael Löwy (1989, p. 17), existem pelo menos quatro níveis ou graus de afinidade eletiva , para o nosso objetivo, que aqui é apurar a origem da afinidade entre Bloch e Honneth, interessa-nos apenas o primeiro. Sobre ele, Löwy diz o seguinte: “o primeiro [nível] é afinidade pura e simples, o parentesco espiritual, [...] a correspondência. [...] É importante sublinhar que a correspondência (ou afinidade) é uma analogia ainda estática, que cria a possibilidade mas não a necessidade de uma convergência ativa”. Entendemos que a afinidade existente entre Honneth e Bloch, que se expressa através da importância que conferem, cada qual ao seu modo, aos afetos expectantes (como será demonstrado a seguir), deriva de um outro autor importante e influente para o pensamento de ambos: Hegel . Ou seja, há uma correspondência, uma afinidade entre Honneth e Bloch produzida por um terceiro elemento que é o elo entre os dois. Com isso, queremos apenas demonstrar que a afinidade entre eles não é fruto de mera coincidência, há um nexo. Vejamos agora qual a natureza dessa proximidade entre eles.
Sobottka (2015) indica que Hegel é uma referência fundamental para Honneth. Assim como notoriamente também é importante para Bloch. Nesse sentido, as palavras de Bloch sobre Hegel nos são elucidativas para entender a importância dos afetos tanto para o próprio Bloch quanto para Honneth:
Não há livro que, em seu procedimento conceitual, esteja mais perpassado por inquietações e noções afetivas que a Fenomenologia do espírito. Isto exatamente por causa da liquidação do peitoral não mundano, que quis tomar o ‘pulso da vitalidade’ sobretudo externo, no mundo. E com Hegel, nada de grandioso foi realizado sem paixão, sem dúvida nada de grandioso que se refira ao si-mesmo pode ser compreendido sem a noção afetiva (BLOCH, 2005, p. 75).
Nessa citação Bloch chama a atenção para a importância que Hegel atribui aos afetos, consequentemente, ao que tudo indica, isso influenciou tanto Honneth quanto o próprio Bloch, de modos diferentes, evidentemente. Bloch dedicou uma extensa obra para a discussão do significado e importância dos afetos expectantes, do futuro, da esperança para o Ser, defendendo a tese de que o elemento ontológico primeiro e primordial do Ser, o princípio, é a esperança, a espera produtiva, o ser-que-ainda-não-é e que está sempre em busca de sua realização (BLOCH, 2005). Já para Honneth, a expectativa de reconhecimento frustrada, ou seja, o bloqueio de uma coisa expectada, esperada, desempenha o importante papel, em sua teoria, de colocar os indivíduos em movimento, em luta por reconhecimento.
Como estamos argumentando que a afinidade entre Bloch e Honneth deriva de Hegel e que isso se reflete na importância que esses autores conferem aos afetos expectantes, talvez seja pertinente resgatar a origem dessa palavra. Ela vem do latim exspectātum e significa exatamente: “1) Ato ou efeito de expectar; 2) Esperança baseada em supostos direitos, probabilidades, pressupostos ou promessas; 3) Ação ou atitude de esperar algo ou por alguém, observando” (DICIONÁRIO..., 2016). Expectativa é, portanto, um afeto voltado para o futuro, é a espera pela realização de algo desejado.
A esperança para Bloch não é espera passiva, mas antes é ativa. Ela é potência que coloca o Ser em movimento na direção da consecução do objeto de seus afetos expectantes, é a transformação da potência em ato. E o que aproxima Honneth de Bloch é justamente o seu entendimento de que a frustração de expectativas de reconhecimento, decorrente de diferentes formas de desrespeito, está intimamente ligada, muitas vezes, à criação de um movimento social.
Evidencia-se que o cerne do entendimento de Honneth a respeito da origem dos movimentos sociais, isto é, expectativas de reconhecimento frustradas, está intimamente ligado ao futuro, à espera, à esperança dos indivíduos em terem suas expectativas de reconhecimento atendidas. Para Honneth as expectativas de reconhecimento podem ser frustradas em função de três formas de desrespeito que ocorrem em três esferas da vida: na esfera do amor, o desrespeito correspondente é o da violação, maus tratos; na esfera do direito, o indivíduo é privado de direitos; e na esfera da solidariedade/realizações, o desrespeito correspondente é o da degradação moral/injúria (SOBOTTKA, 2015).
Conforme Sobottka (2015, p. 129), as situações de desrespeito, de frustração de expectativas legítimas de reconhecimento geram no sujeito a “percepção de injustiça”, que é sempre uma “experiência pessoal, individual”. Disso pode resultar mobilizações para a resistência, isto é, podendo levar à eclosão de um movimento social. Ernst Bloch, por sua vez, vai ao encontro de Honneth e fortalece sua tese sobre a origem dos movimentos sociais ao postular o seguinte acerca da importância da espera, da esperança para o ser humano:
O ato de esperar não resigna: ele é apaixonado pelo êxito em lugar do fracasso. A espera, colocada acima do ato de temer, não é passiva como este, tão pouco está trancafiada em nada. O afeto da espera sai de si mesmo, ampliando as pessoas, em vez de estreitá-las: ele nem consegue saber o bastante sobre o que anteriormente as faz dirigirem-se para um alvo (BLOCH, 2005, p. 75).
O que nos interessa frisar em Honneth é que, de certa forma, ele lançou luz sobre a importância das expectativas, projeções voltadas para o futuro, ao indicar que a luta por reconhecimento é desencadeada pelo “sentimento de injustiça” decorrente de expectativas de reconhecimento frustradas. Para esse estudioso não se trata, em um primeiro momento, do sujeito possuir uma consciência de injustiça informada por um critério racionalizado de justiça. O processo origina-se primeiro em um estrato ontológico mais primário, tudo aflora inicialmente como um sentimento, como afecção, como afeto.
Queremos com isso demonstrar que embora as projeções de futuro dos sujeitos, suas expectativas, não sejam o foco central do pensamento de Honneth, sem dúvida é um elemento de primeira relevância em sua arquitetura teórica. Possibilitando-lhe captar sensivelmente a dinâmica da efetividade social. A teoria do reconhecimento honnethiana compõe e conjuga afeto e racionalidade, exatamente nessa ordem. Não por acaso, o desrespeito é primeiro sentido pelo sujeito sob a forma de “sentimento de injustiça”, “percepção de injustiça” (SOBOTTKA, 2015), ou seja, sob a forma de afeto.
Honneth permite-nos fazer duas observações sobre a incidência da esperança e dos afetos nos movimentos sociais: primeiro, o que alimenta os movimentos sociais é a esperança de produzir inter-relações pautadas pelo reconhecimento recíproco; segundo, os indivíduos alvos do desrespeito relacionam-se com ele através de afecções, são afetados, sentem que são afetados, e somente depois isso pode transforma-se em uma elaboração racionalizada, principalmente se organizados em um movimento social, onde criam-se espaços privilegiados para a elaboração coletiva do desrespeito sofrido.
Como até aqui apenas fizemos menção a algumas categorias blochianas – afetos expectantes, espera, esperança – faz-se necessário apresentar de forma sistemática as categorias que consideramos pertinentes e fecundas do pensamento de Bloch para pensar heterodoxamente movimento social. Também esboçaremos alguns tópicos de interpretação de movimento social à luz dessas categorias e sempre que necessário recorreremos a Honneth.