A presença da escola numa comunidade ou em um assentamento rural, constitui uma perspectiva de futuro e autoafirmação do grupo em relação ao seu entorno. A escola é a principal mediadora dessa relação de pertencimento, que não termina na demarcação de um lote de terra. É objetivo deste artigo discutir como a educação, baseada nos preceitos da diversidade dos processos produtivos e culturais, formadores dos sujeitos humanos e sociais, pode servir de instrumento de reconhecimento e visibilidade social dos sujeitos do campo, a partir de pesquisa realizada no espaço escolar.
O espaço escolar estudado foi a Creche Espaço da Alegria, localizada no Assentamento de Santa Agostinha, município de Caraúbas, estado do Rio Grande do Norte (RN), Brasil. Pactuada como ação prioritária para o Assentamento pelo Colegiado do Território do Sertão do Apodi (RN), em especial, pelos sujeitos que moram no Assentamento, a demanda por uma escola localizada no espaço rural não é só uma resposta ao contexto que situa o seu inevitável desaparecimento, mas também se traduz em reconhecimento da participação da sociedade local na questão da educação. É, pois, fruto da mobilização local dos atores e da necessidade de criar novos espaços de intervenção social no domínio da educação no quadro da territorialização do espaço rural, que nos faz pensar sobre o sentido da escola e sua importância para que crianças, nela, se mantenham.
Para entender o trajeto, a forma e as condições concretas e viáveis da sua construção, trazemos para a discussão: o contexto da formação do Assentamento Santa Agostinha; o sentido e o significado da proposta pedagógica de educação contextualizada de educação infantil; o papel da escola no assentamento, seus desafios e as vulnerabilidades de implementação e desenvolvimento; para, em seguida, refletir sobre as possibilidades de desconstrução da inferioridade dos sujeitos do campo por meio da prática educativa. Nessa travessia, as contribuições de Axel Honnet (2001; 2003) e Nancy Fraser (2001) sobre reconhecimento social, Boaventura Santos sobre participação social (2003, 2008) e Jessé Souza (2003, 2006) sobre o tratamento dos invisíveis sociais nos forneceram as bases para imprimir visibilidade a essa prática educativa tencionada por valores e sentimentos de autoafirmação.
O conhecimento produzido nos conduziu a perceber o que estava socialmente invisível: uma escola pensada, demandada e executada no assentamento rural, pretensamente diferenciada de um modelo hegemônico de educação. A vereda que se apresenta para o fortalecimento de uma educação contextualizada, capaz de contribuir para a desconstrução da inferioridade dos sujeitos do campo, precisa ser questionada e dialogada.
As conquistas alcançadas em função do processo de organização e participação social, procuraram desconstruir as condições de inferioridades e sentimentos de isolamento, sob o reconhecimento de que os sujeitos se educam quando exercitam a capacidade de fazer escolhas e refletir sobre elas.
Neste espaço, o processo educativo decorre da sua capacidade de incorporar-se à dinâmica da sociedade, integrando-se ao impulso de suas demandas e reivindicações socioculturais. Foi dessa forma que, por meio da experiência vivenciada na atuação do Colegiado Territorial Sertão do Apodi, percebemos a intencionalidade da ação e do conhecimento que circundam os sujeitos do campo que ali vivem em busca da desconstrução da sua condição de inferioridade social
A pauta da educação ainda não se traduz em agenda anunciativa prioritária de um projeto de sociedade e de emancipação humana no Território. Contudo, o espaço do Colegiado ao procurar desenvolver essa sensibilidade que informa a educação como prática social formal e não formal, contribui para construção de saberes orientadores de novas práticas sociais, ganhando, paulatinamente, dentro do Território ares de visibilidade e perspectivas de uma atuação comprometida com a territorialização de práticas educativas construídas nas experiências cotidianas e na escola.
No Território detectamos que a escola é o centro da dinâmica social. Ela assume um viés valorativo ao construir referenciais formativos para o indivíduo ou para o grupo por inserir-se nas questões e desafios da comunidade, em um processo permanente de desconstrução das diferenças, convertidas em desigualdades as quais foram submetidos os sujeitos do campo. Podemos dizer ainda que, ela é o locus privilegiado das discussões que envolvem a sociedade local. Mas, é na atuação do Colegiado do Território que brotam resistências e é na organização de como agir em grupo coletivamente que ocorre a luta pela superação da condição de desigualdade social, processo dinâmico, conflituoso e coletivo.
A escola, todavia, é referência para se perceber o vínculo com a diversidade da vida humana presente nos valores, nas atitudes, nos comportamentos e nas tomadas de decisões, enfim, na produção social de sua existência presenciada nesta pesquisa nos momentos iniciais da formação humana.