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Resumen de ponencia
Traçando retratos sociologicos decoloniais

*Liliane Souza E Silva



A presente discussão metodológica é parte de uma proposta de doutorado que busca realizar um estudo comparado das experiências de permanência de universitários negros que ingressaram, através de políticas afirmativas, no curso de Pedagogia da Universidade Federal de Minas Gerais no Brasil, e da Universidad Pedagógica Nacional da Colômbia. Partimos do pressuposto que a análise das experiências estudantis é um valioso instrumento para entendermos as estratégias e possibilidades de permanência dos mesmos. A experiência social, de acordo com François Dubet (1994), constrói-se a partir da combinação de três lógicas de ação: a integração, a estratégica e a subjetivação As experiências sociais vivenciadas no ambiente escolar, por exemplo, podem ser observadas e analisadas a partir dos discursos dos sujeitos investigados. As escolhas do estabelecimento de ensino, das disciplinas e a hierarquização das áreas de ensino são explicadas em termos de uma racionalidade competitiva, que se encaixam na lógica estratégica. A participação em grupos de pares e as afinidades afetivas desenvolvidas nos intervalos, nos cafés e em outros momentos livres na organização escolar referem-se à lógica de integração. A formação de uma subjetividade se dá quando os estudantes liberam-se tanto da competição da lógica estratégica, quanto do conformismo da integração à cultura juvenil e constituem uma autenticidade nessa tensão, ou seja, o agente constrói sua personalidade. François Dubet (1994) realizou suas observações sobre a experiência escolar nos liceus franceses, num contexto de massificação e quebra de homogeneidade. Ao investigar a experiência de um grupo que confere diferentes sentidos ao jogo escolar, o autor percebe que a hierarquia social não é apenas uma hierarquia “dos recursos e das culturas, é também uma hierarquia das experiências, cujas tensões aumentam do topo para a base do aparelho educativo” (DUBET, 1994, p.216). Assim, as experiências dos agentes estão relacionadas com as exclusões e desigualdades presentes na sociedade e na escola, mas não podem ser explicadas, apenas, por estas características. Para se compreender as múltiplas hierarquias presentes nas experiências escolares e a heterogeneidade do público estudantil é necessário atentar-se para as diferentes “maneiras de ser estudante”
Considerando as particularidades e as especificidades contidas na inserção de estudantes negros, que ingressam através de políticas afirmativas, no Brasil e na Colômbia, optamos por uma abordagem qualitativa. O ponto de partida metodológico é a orientação teórico-metodológica de retratos sociológicos proposta por Bernard Lahire (2004). O desafio central desse estudo é traçar retratos sociológicos decoloniais. Assim, torna-se essencial uma reflexão sobre uma prática científica sociológica que tenha como referência o “paradigma de um conhecimento prudente para uma vida decente” proposto por Boaventura de Sousa Santos (2000; 2004). Desta maneira a promoção de um diálogo entre um método eurocentrado, ou seja, os retratos sociológicos de Bernard Lahire (2004), e a corrente modernidade-colonialidade-decolonialidade na América Latina tem lugar central. Entende-se que este encontro não deve pautar-se por oposições entre o saber das “sociedades do sul” e os saberes produzidos nas sociedades do norte. Partimos, principalmente, da premissa de que racionalidade moderna na qual a Sociologia foi fundada como disciplina resultou em práticas investigativas insensíveis à variedade de realidades da América Latina. Isso redundou em produções marcadas por estigmatizações, invisibilidades e visões subestimadas de humanidade. A principal pretensão desta comunicação é refletir sobre as possibilidades de se promover epistemologias atentas aos contextos sociais, históricos e culturais da América Latina que fuja do “totalitarismo epistêmico” eurocentrado. Apesar de reconhecer que o paradigma vigente nas discussões sobre acesso e permanência de estudantes no ensino superior baseia-se nos estudos e pesquisas produzidas na Europa, defendemos que há uma lacuna teórico-metodológico destas questões no contexto latino americano que justifica a busca por uma racionalidade decolonial.




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* Souza E Silva
Faculdade de Educação. Universidade Federal de Minas Gerais - FaE/UFMG. Belo Horizonte- MG, Brasil