A pesquisa aqui apresentada é fruto de projeto de iniciação científica com financiamento do CNPq e vinculado à pesquisa “Sobre (des)possessões, (des)ocupações e (in)visibilidades: lutas políticas, intervenções estéticas e ritualísticas de presença e subjetivação na relação com o corpo, a cidade, as imagens e o consumo” (PQ/CNPq), coordenada pela Profa. Dra. Rose de Melo Rocha, orientadora da iniciação.
Com o recorte “práticas alimentares, corpo e espiritualidade”, iniciamos nossa investigação científica analisando as concepções de ativismo, política e consumo nas narrativas de jovens ativistas da região metropolitana de São Paulo. Esta base de dados consiste dos dados brutos frutos da pesquisa “O que consomem os que não consomem? Ativistas, alternativos, engajados”, idealizada pelas Prof.a Dra. Rose de Melo Rocha e Prof.a Dra. Simone Luci Pereira, ainda em andamento, e que obteve financiamento do CAEPM-ESPM. Estes dados consistem de transcrições de questionários e de entrevistas em profundidade feitas com jovens ativistas moradores da cidade de São Paulo.
Divididos em oito grupos de ativistas, cada um composto por dois a três jovens, este corpus totaliza em 15 pessoas, moradores de diversas partes da região metropolitana de São Paulo. Os grupos são representados pelos seguintes segmentos: a) militantes político-partidários, b) ativistas ambientais, ambientalistas, ecológicos, c) militantes ligados ao debate de gênero, d) veganos, e) ativistas migrantes, f) produtores culturais, g) militantes da democratização da mídia, e h) ativistas antiglobalização.
A metodologia para tratamento e análise de dados adotada na iniciação científica consiste em um método hermenêutico-dialético proposto por Minayo (2015). Com base neste modelo, separamos os 15 entrevistados em 4 categorias para análise: a) os entrevistados que são estritamente veganos; b) os ativistas que demonstraram preocupação com o consumo alimentar de origem animal; c) os ativistas que falaram sobre consumo alimentar, mas sem preocupação com produtos de origem animal; e d) os ativistas que não falaram sobre consumo alimentar (este grupo não entrou na análise).
Como primeiros resultados, percebemos nessas narrativas a formação de um projeto social vegano que percebe a ação individual perante o consumo como prática política. Este discurso aponta para a possibilidade de escolha dentro do universo do consumo como uma forma possível de atuação e de exercício de consciência social; para a urgente redução da escala de necessidades; e para as formas de se comunicar pelo discurso subjetivo e individual, pelo uso de redes sociais, pelo uso do corpo, suas funcionalidades e suas visualidades.
Os outros grupos, 2 e 3, consideram que a ação ativista se dá através da conscientização, do diálogo e em atitudes diárias; estes entrevistados, majoritariamente, pensam que fazer política é agir coletivamente, inclusive com o uso do corpo, que só serve como mídia se várias pessoas estiverem juntas chamando a atenção para alguma causa. Os veganos divergem neste ponto, pois consideram o próprio corpo como mídia que comunica desde a boa saúde resultante de seu estilo de vida até as tatuagens que possuem e são relacionadas ao movimento.
Outro ponto de destaque desta análise está na profunda relação presente nas narrativas veganas entre suas concepções e critérios perante o consumo e suas compreensões de ensinamentos espirituais. A preocupação com as diferentes formas de linguagem como modo de ação política dentro do consumo – seu estilo de vida, seu corpo e a maneira como ocupam a cidade – está embasada em concepções e práticas de espiritualidade, o que os leva a se denominarem “ativistas do exemplo”, dentro da sociedade do consumo. Por conta deste aspecto, seus discursos parecem se referir a uma subjetividade que possui como aspecto motivador a ideia (em alguns casos messiânica) de salvação atinente ao projeto vegano; este propósito se torna o valor que sustenta o projeto de vida vegano.
Podemos, então, sugerir que há certa ordem de (des)possessão nas ações de nossos ativistas veganos expressa na relação entre ativismo, consumo e espiritualidade tal como estão presentes em suas narrativas. Percebe-se a dimensão mística do consumo quando se referiram, por exemplo, à “energia” negativa que se adquire no consumo de carne, sobre a relação consumo e equilíbrio com o meio ambiente e sobre suas escolhas veganas cotidianas como ações políticas de caráter transformador. Para eles, há presença do sagrado no cotidiano que interfere em suas atitudes e comportamentos, que sustenta seus projetos de vida, tornando-os “ativistas do exemplo”.
O último ponto observado que merece destaque se caracteriza pela quantidade superior de mulheres que mencionaram preocupações e critérios em relação ao consumo alimentar de origem animal. Carol J. Adams (1990), em seu livro A Política Sexual da Carne, fala sobre a relação entre a exploração feminina e a exploração animal no sistema capitalista, e discorre sobre a necessidade de se dar voz às narrativas femininas, por conta de sua fragmentação, similar à fragmentação do animal, dentro da cultura patriarcal.
Com este cenário, caminhamos para o questionamento: o que pensam e comunicam as lideranças femininas de centros de desenvolvimento espiritual em relação a consumo alimentar. Assim, entrevistamos 3 mulheres xamãs urbanas líderes de espaços xamânicos em São Paulo. As entrevistas seguiram o método de entrevista narrativa segundo Jovchelovitch e Bauer (2008), com o intuito de entender o que estas vozes importantes na formação cultural da sociedade entendem sobre consumo e consumismo, bem como exercem na cidade seus espaços de encontros com a sociedade, além de suas práticas de consumo alimentar.
Com a análise destas narrativas, ainda em processo de finalização, pretendemos correlacionar seus discursos em relação ao consumo às narrativas dos ativistas veganos; e esmiuçar os aspectos que trazem em seus discursos das diferentes formas de práticas espirituais em ambientes sagrados e corporativos, bem como o emergente consumo “mercadológico” de plantas de poder. Pretendemos, então, explorar a complexa relação do sagrado e do profundo vinculada à ideia de consumo nestas narrativas e, assim, refletir sobre a ordem de possessão “demoníaca” em torno do consumo e a despossessão como perspectiva transgressora a esta ordem (ROCHA, 2017).
Referências bibliográficas:
ADAMS, Carol. A política sexual da carne: a relação entre carnivorismo e a dominância masculina. São Paulo: Alaúde Editorial, 2012.
BAUER, Martin W.; GASKELL, George. Pesquisa qualitativa com texto, imagem e som: um manual prático. Petrópolis – RJ: Vozes, 2008.
DESLANDES, Suely; GOMES, Romeu; MINAYO, Maria C.; Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 34 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2015.
ROCHA, Rose de Melo. Esta noite encarnarei no teu objeto: a (des)possessão como mística e lógica capitalista. In: 260 Encontro Anual Compós. Anais. São Paulo, 2017.
ROCHA, Rose de Melo; PEREIRA, Simone Luci. Ativismos juvenis com o artesania de uma outra democracia: comunicação, consumo e engajamento político. In: C&S – São Bernardo do Campo, v.39, n.3, p. 161-188, set/dez. 2017.