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Resumen de ponencia
Precarização do trabalho e autonomia econômica das mulheres

*Maria Betania De Melo Ávila
*Myrian Angélica González Vera
*Verônica Maria Ferreira



Discutir as dinâmicas que configuram o processo de precarização, considerando a realidade das mulheres e em particular das mulheres negras que são sujeitas do trabalho que estão no âmago desse processo, abordando diferentes dimensões e realidades e numa perspectiva que articula o trabalho produtivo e reprodutivo, mostra-se de fundamental relevância para responder aos desafios colocados à produção do conhecimento sociológico sobre trabalho na América Latina.
Nesta mesa redonda, nos propomos a debater os processos de precarização e superexploração do trabalho das mulheres no atual contexto de crise e restauração do sistema capitalista-patriarcal-racista, a partir da perspectiva da divisão sexual do trabalho e da consubstancialidade das relações sociais (Kergoat, 2010) e tomando contextos específicos da realidade brasileira.
Partilharemos resultados de pesquisa sobre trabalho precário das mulheres em diferentes contextos da realidade brasileira, considerados como polos dinâmicos da economia no País, em três regiões distintas: na região Nordeste, o Polo de Confecções do Agreste Pernambucano; na região Norte, o Polo Industrial do Alumínio, em Barcarena, no estado do Pará; e na região Sudeste, o setor de Construção Civil na região Metropolitana de São Paulo – SP. Escolhemos esses territórios porque foram construídos a partir de processos de desenvolvimento distintos, mas profundamente articulados ao processo de crescimento em curso nos estados e no país. A pesquisa foi realizada no período de 2013-2015 com apoio do IDRC – Centro Internacional de Desenvolvimento e Pesquisa do Canadá.
Nesta nossa abordagem, contexto é tomado como uma noção teórico-metodológica relevante que orientou o processo de pesquisa. Contexto não se confunde com entorno nem se restringe à ideia de um território, mas define-se como um espaço-tempo no qual as relações sociais tomam lugar e expressam suas particularidades através de práticas sociais concretas. Implicam um processo histórico de estruturação de um campo de atividades produtivas e de conformação de relações sociais de sexo, classe e raça, que se forjam de maneira imbricada e consubstancial e revelam uma dinâmica entre presente e passado, local e global.
Situadas em realidades tão diferentes, Barcarena no Pará, Toritama em Pernambuco e a região metropolitana de São Paulo, as participantes desta pesquisa parecem estar todas sincronizadas em um mesmo ritmo temporal nos dias em que enfrentam as jornadas formadas de trabalho produtivo e reprodutivo. É o ritmo definido pela divisão sexual do trabalho e, dentro dela, pela inserção precarizada no mercado de trabalho. Em síntese, é o ritmo do trabalho dado pela ubiquidade da exploração da força de trabalho das mulheres que toma formas concretas e particulares, na conformação do cotidiano, através das práticas sociais em cada contexto social.
Nas trajetórias dessas trabalhadoras revelam-se diferentes estratégias acionadas pelas empresas nos três contextos investigados, para reconfigurar as relações de trabalho, tornando-as ainda mais periféricas e precárias, e nas quais as mulheres são os sujeitos diretamente concernidos. A precariedade não é uma situação estática dada pela natureza do vínculo estabelecido; ela é um movimento permanente estruturado por processos materiais e ideológicos nas trajetórias laborais das mulheres e na articulação entre produção e reprodução social.
No caso das mulheres trabalhadoras, que se mantêm como as principais responsáveis pelo trabalho reprodutivo, mesmo inseridas no trabalho produtivo, a precarização só pode ser apreendida ao se considerar as dinâmicas e condições de inserção nesses dois trabalhos. Para as mulheres, a divisão sexual do trabalho, materializada em suas vidas cotidianas como um movimento contínuo entre trabalho reprodutivo e trabalho produtivo de maneira intermitente e, em muitos casos, de maneira simultânea, é em si um fator de precarização.
Para essas trabalhadoras que passam o cotidiano transitando entre as esferas produtiva e reprodutiva, a inserção precária no mundo do trabalho garante uma autonomia precária de vida, sob o peso de um trabalho produtivo alienado que lhes assegura minimamente a sobrevivência e gasta seus corpos, reduzindo-lhes o usufruto do tempo corrente da sua própria vida.
Pensamos que a abordagem metodológica desenvolvida nesta pesquisa e os conceitos elaborados possibilitam uma reflexão crítica sobre a autonomia econômica das mulheres em contextos de trabalho precário, a partir do ponto de vista feminista e ancorada na experiência de mulheres trabalhadoras que vivenciam uma experiência de trabalho precário, experiência esta majoritariamente vivida pelas mulheres e, sobretudo, pelas mulheres negras, no caso brasileiro.




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* De Melo Ávila
SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia. Recife, Brasil

* González Vera
SOS CORPO Instituto Feminista para a Democracia - SOS CORPO. Recife, Pernambuco, Paraguay

* Maria Ferreira
SOS Corpo Instituto Feminista para a Democracia. Recife, Brasil