Resultante de um trabalho de doutoramento, a presente proposta apresenta uma reflexão quanto às interfaces entre sociologia e medicina nos anos 1930 no interior da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mais precisamente sobre o registro da passagem do médico Antônio Ferreira Almeida Jr. por entre o corpo docente desta instituição. Assim como outros médicos seus pares e contemporâneos, Almeida Jr. lecionou para as primeiras turmas da ELSP, oferecendo uma disciplina de cunho biológico intitulada Fisiologia do Trabalho. Neste sentido, trata-se do principal objeto deste trabalho os conteúdos gerais da ementa de sua disciplina lecionada a partir de 1933, e, em segundo plano, porém não menos importante, uma leitura mais apurada sobre suas reflexões acerca do papel da educação sanitária. As temáticas tratadas por este médico – fisiologia do trabalho e educação sanitária – devem ser tomadas da perspectiva da relação que guardam com um ideal modernizante presente nos anos 1930, considerando-se a necessidade do trabalho e da educação como aspectos imprescindíveis para a transformação do país e realização dos auspícios presentes no ideário de um Brasil Moderno. Metodologicamente, trata-se de uma análise de fontes primárias que registram a passagem de Almeida Jr. pela ELSP e suas ideias como médico. Neste sentido, o objetivo do trabalho é promover uma análise quanto ao papel e a dimensão que as ideias de natureza biologizantes tiveram em um momento fundamental não apenas da formação da sociedade moderna brasileira – e mais especificamente paulista, mas do processo de institucionalização das ciências sociais. É um momento fundamental da história política e intelectual do país, importância esta que se reflete diretamente no trânsito de intelectuais entre as principais instituições de produção acadêmica ligadas direta ou indireta ao Estado ou ao seu projeto modernizador. Este trânsito é bem representado por um grupo de médicos paulistas que se fizeram presentes e atuantes em espaço extramuros à Faculdade de Medicina de São Paulo ou à Escola Paulista de Medicina. Esta efervescência cultural e intelectual permitiu a aproximação destas instituições com a Escola de Sociologia e Política de São Paulo, permitindo-se uma ligação para além dos homens, mas de ideias, por distintos espaços intelectuais. Neste sentido, Almeida Jr seria um bom exemplo.
Em 1922, defendeu sua tese, ao concluir os estudos na Faculdade de Medicina de São Paulo, apresentando o trabalho intitulado O saneamento pela educação (ALMEIDA JR., 1922). O título expressava sua crença na educação sanitária que, assim como para tantos outros médicos, era uma das ferramentas mais eficazes na promoção da saúde pública. Mas é a introdução deste seu trabalho que merece destaque, pois antes de concluir pelo valor da educação sanitária vai discorrendo sobre alguns diagnósticos acerca da sociedade brasileira, identificando leituras otimistas e pessimistas que, ao se referirem à condição social do brasileiro de algum modo, tangenciavam a temática da saúde. "Nem Canaã, nem hospital" (ALMEIDA JR., 1922, p. 6) dizia ele ao tentar ponderar as visões diametralmente opostas sobre Brasil, e partindo desta ponderação construía seu argumento pela necessidade do saneamento. Considerando-se o peso que a eugenia e, mais especificamente, a teoria raciológica ainda teria no primeiro quartil do século passado, esta leitura de Almeida Júnior o colocaria entre outros não tão afetados pela influência de médicos como Nina Rodrigues, nome de expressão extremamente relevante na conformação das primeiras interpretações acerca do Brasil. A premissa de que o Brasil não era, mas estava doente, ganhará vulto neste contexto do início do século XX, como se discutirá profundamente mais frente neste trabalho. Por ora, basta dizer que esta constatação era o principal pilar sobre o qual a defesa da promoção da educação sanitária se ergueria, afinal, o que faltava era a instrução como modo de combate contra a ignorância.
Um dos motes da reforma da saúde pública paulista entre o primeiro e segundo quartel do século foi a promoção da educação sanitária, principalmente por meio dos chamados centros de saúde. Mas em sua tese, o que Almeida Junior destacava era o papel que a escola deveria assumir na promoção desta educação em prol do sanitarismo. Afirmava sobre a escola primária que, "até hoje [1922] quase desinteressada do problema da higiene, precisa intervir com sua cooperação poderosa, e, na sua modéstia e aparente fraqueza, dar solução ao exaustivo problema da atualidade" (Ibidem, p. 29). Portanto, via a educação sanitária como uma importante arma no enfretamento dos problemas sanitários, pois em sua opinião, era a ignorância de uma massa desinformada e pouco esclarecida que jogava contra os anseios por uma sociedade higienizada. Neste sentido, fica evidente que em seu posicionamento há uma preocupação com a promoção de uma medicina social de natureza preventiva que, ao reconhecer a falta de informação como um determinante social da saúde, entende, portanto, que deve haver ações de natureza coletiva, a exemplo da educação sanitária desenvolvida nas escolas.
Mas na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, o tema discutido por Almeida era a disciplina chamada de Fisiologia do Trabalho e, dentre as temáticas discutidas, estavam questões desde aquelas ligadas a aspectos do funcionamento da "máquina humana" e "rendimento do motor humano" (nos termos do programa de ensino da disciplina), até outras mais específicas às condições de trabalho e a acidentes e doenças causados na atividade profissional. Evidentemente, entre estas temáticas do programa de ensino – como a genética ou a preocupação com a idade mais adequada ao casamento, o que há de comum é o viés biológico, que busca a compressão da composição, do funcionamento, e da manutenção desta "máquina" chamada corpo humano. Com a certeza de que de alguns conhecimentos seriam fundamentais a boa formação daqueles que seriam os novos cientistas sociais brasileiros, os responsáveis pela formação da grade do curso da primeira turma da ELSP não hesitaram em introduzir disciplinas como esta lecionada por Almeida Junior.
Neste sentido, ao passo que estudavam em outras disciplinas noções de sociologia clássica e contemporânea, também passavam pela perspectiva das condições biológica do homem, a exemplo dos tópicos como: discussões sobre noções anatômicas sobre os ossos e articulações; contração muscular e sua fadiga; a locomoção humana; o valor energético dos alimentos; relações do trabalho com funções orgânicas; doenças inerentes a profissões, entre outros. Deste modo, considerando-se esta perspectiva da qual falava Almeida Junior para seus alunos na ELSP, pode-se identificar nela preocupações inerentes a outra frente da medicina social que não apenas aquela preocupada com o sanitarismo, mas aquela que tem como foco a preocupação com a saúde do trabalhador e, portanto, preocupação com o contingente de mão de obra disponível para o desenvolvimento da produção econômica.
Assim, a preocupação da medicina social com o trabalho — sendo assim uma de suas frentes - expressa em áreas como esta lecionada por Almeida Junior é indicativa daquilo que se poderia identificar, mais especificamente, como similar ao caso inglês de uma medicina social: um olhar mais atento às atividades de trabalho diante as transformações do modo de produção capitalista dado o crescente processo de industrialização. A saúde do trabalhador, deste modo, não deveria ser observada como uma preocupação quanto à saúde individual, mas sim coletiva, chegando a transcender o próprio âmbito da saúde em si, pois se tratava agora também de uma questão econômica, pois do trabalho dependia o desenvolvimento do país.
Portanto, ao que parece, havia o entendimento de que caberia aos estudantes de ciências sociais, interessados em compreender o trabalho e seu papel na sociedade, não se limitarem ao conhecimento deste apenas como fenômeno social. Era preciso ir além, pois sua compreensão não se limitava às ciências sociais em si, mas se estendia às ciências biológicas, o que justificava uma disciplina como Fisiologia do Trabalho em um curso de Sociologia. Deste modo, era preciso compreender o trabalho não apenas como fenômeno social, mas também biológico. Isso significa que, a despeito da presença de um ideário progressista em defesa de valores sociais que invocavam um Brasil mais moderno na propositura da fundação da ELSP (o que está disposto, claramente, em seu Manifesto de Fundação), contraditoriamente a esta modernização estariam as velhas teorias pautadas em leis biológicas, ainda que estas reivindicassem para si uma aura modernizante (a exemplo dos incipientes estudos sobre genética naquele momento).
Deste modo, a proposta deste trabalho é promover uma leitura mais profunda da obra de Antônio Almeida Prado Jr. como registro das interfaces entre sociologia e medicina em um momento fundamental do processo de institucionalização das ciências sociais no Brasil.