Resumo:
Quais são as consequências na saúde mental para os trabalhadores de enfermagem do Rio de Janeiro que o trabalho precário produz? O presente estudo pretende discutir sobre o trabalho precário entre os profissionais da enfermagem da cidade do Rio de janeiro. Trabalho precário entendido não só nas condições legais trabalhistas, mas também no cotidiano da falta de condições de cumprir a tarefa prescrita e uma adequada assistência a população atendida. O crescimento das formas precárias de trabalho tem seu impacto na justiça social e estende seus tentáculos ao campo da saúde. O presente trabalho teve como objetivo analisar as manifestações de prazer e sofrimento dos profissionais de enfermagem de uma maneira ampla e contextualizada bem como as consequências na saúde mental do processo de precarização do trabalho em equipes de enfermagem atuantes em hospitais públicos da cidade do Rio de Janeiro. A questão central deste estudo é que o trabalho precário resulta numa inadequada condição de produção das atividades laborais, promovendo agravos a saúde mental dos trabalhadores da enfermagem. Um dos muitos enfoques do estudo é o da Psicologia Social que compreende a maneira que as pessoas pensam, sentem e se comportam perante as condições de vida. Daí a importância da Psicologia Social para entender como o cotidiano dos trabalhadores da enfermagem influenciam nas condições de saúde mental dos mesmos. Abordando o campo da Psicologia Social, enfatizou as necessidades dos trabalhadores de uma visão sobre o mundo do trabalho que não descreva doenças, aspectos sociológicos e os econômicos. Avaliamos as condições de saúde mental dos profissionais de enfermagem duplamente expostos aos efeitos do trabalho precário, ou seja, sem proteção da seguridade social e submetidos a precárias condições de trabalho. Uma das abordagens do trabalho precário aponta para uma gestão ineficiente do trabalho, inadequada para as exigências do mundo atual produzindo dúvidas, incertezas e insegurança nos atingidos. Para tanto irá apresentar o trabalho precário e realçar suas repercussões especificas no campo da produção das condições de saúde do homem no século XXI. Faz-se necessário apresentar as práticas e percepções que os profissionais têm da saúde mental e os seus conflitos com as condições e organização do trabalho. A metodologia empregada consistiu na aplicação de um questionário estruturado que foram retirados de duas fontes: do Maslach Burnout Inventory e da Escala de Percepção de Justiça Organizacional. O instrumento foi dividido em três partes: dados de identificação, relação com o trabalho e vida no trabalho, para identificar vulnerabilidades em saúde mental das equipes de enfermagem abordadas. O estudo quali-quantitativo foi realizado por meio de uma amostragem aleatória simples e os questionários foram respondidos por profissionais da enfermagem durante o trabalho. Nas últimas décadas do século XX foram abundantes as transformações do mundo do trabalho principalmente no campo social. A globalização, uma vertente da economia e do comércio mundial, tem abrangência nos aspectos sociais, políticos e culturais. As mudanças tecnológicas guiadas pela informatização, pela velocidade da informação e da biotecnologia nas ciências da vida atingiram o mundo do trabalho e a classe que vive do trabalho. Não menos importantes foram as mudanças no mundo do trabalho; o sistema de proteção trabalhista conquistado com lutas foi se rendendo a um enorme crescimento econômico, trazendo à tona relações conflitivas entre o capital e trabalho. O desmoronamento das conquistas trabalhistas é o resultado do domínio da ideologia neoliberal e é o resultado de mudanças tecnológicas profundas da globalização econômica e comercial. Novas tecnologias não acompanham profissionais preparados e um alcance imediato a população e sim fica restrito a parte desta que tem capital para financia-la. Com isto cria no campo da saúde a luta do público e do privado: para o privado a melhor tecnologia e formas de alcança-la através do capital e para o público o descaso pela assistência nas doenças. Os profissionais da enfermagem vivenciam nos últimos vinte anos de trabalho não só uma transformação nos ambientes de trabalho, mas também diversas formas de contratação destes profissionais para realizarem as mesmas funções. Cotidianamente é percebido nos postos de trabalho da enfermagem em ambiente públicos duas ou mais formas de contratação. Tais situações não só interferem na organização do trabalho mais aumenta as desigualdades sociais, pois a diferença de renumeração chega a ser expressiva para uma mesma função e uma mesma jornada de trabalho. O trabalho da enfermagem não pode ser desvinculado destas transformações e das mudanças globais que estavam desenrolando no trabalho industrial, apesar da diferença dos meios de produção e das formas distintas de trabalho, a necessidade da estabilidade e da proteção social é essencial em todas as formas de produção. Importante força de trabalho na prestação de serviços e na saúde a enfermagem apresenta um trabalho fragmentado intenso na exigência da força física e psíquica. Em jornadas de trabalho distintas sua presença sempre é requerida em tempo integral, de forma intensa e sempre dando uma reposta imediata e pronta a situações de estresse e de inconformidades. Pela exigência também de muitos fatores externos e internos no seu trabalho a enfermagem sempre está numa situação precária de trabalho.A flexibilidade e a precariedade do trabalho se impõem como parte de uma inovação social e técnica na organização das lógicas do mundo do trabalho, que levam a uma maciça desregulação e uma desvinculação dos indivíduos e da proteção social. A discussão se baseia na precariedade do trabalho de forma estrutural na medida em que o processo afeta não só o indivíduo, mas também o conjunto de trabalhadores acarretando danos na saúde mental destes trabalhadores, através da insegurança, da fragmentação do trabalho e das péssimas condições de organização do trabalho no século XXI. Os resultados obtidos foram estudados em duas categorias: trabalhadores estáveis e não estáveis e vão de encontro com as proposições de que o trabalho precário promove agravos à saúde mental dos trabalhadores, bem como denunciam uma forma gestão do trabalho ineficiente, que produz dúvidas, incertezas e insegurança no mundo do trabalho. Enfatizamos a importância de estudos em Psicologia Social nas condições de trabalho em situações precárias. As questões da precarização do trabalho vêm se constituindo como preocupação de diversos campos do conhecimento, com destaque para a sociologia do trabalho, a psicologia social, a gestão do trabalho e a saúde do trabalhador. Não é só uma preocupação cientifica a precarização do trabalho, mas também vem ocupando agendas políticas e econômicas nos órgãos governamentais a nível nacional e internacional. No Brasil esta é uma grande preocupação principalmente no setor saúde e tem sido apontada como um grande desafio para a gestão do trabalho no Sistema Único de Saúde. A proteção social e os direitos trabalhistas como expressão da justiça social e da extensão do desenvolvimento humano de uma sociedade, alicerces de relações sociais de trabalho justas, que garantam direitos fundamentais dos trabalhadores: liberdade sindical; erradicação do assédio e das violências (física e simbólica), do trabalho exaustivo e do trabalho infantil. A efetiva existência de diálogo social, entendido como a liberdade e autonomia dos trabalhadores para expor publicamente suas opiniões, defender seus interesses e se colocar num plano de real horizontalidade na hora das negociações com empregadores e autoridades do governo por meio de dissídios coletivos. O ‘trabalho precário’ sintetiza a antítese de todos estes direitos e garantias. Aos fins desta pesquisa, a noção de trabalho precário relacionou às condições de trabalho preconizadas não apenas pela ausência dessas garantias e direitos trabalhistas, mas também as situações derivadas da não participação dos trabalhadores no seu ambiente de trabalho, e consequentemente, a incapacidade de resistir processos e condições de trabalho adversas e insalubres que lhe são impostas. Dialeticamente, o trabalho decente é à justiça social o que o trabalho precário é à vulnerabilidade dos trabalhadores. A precarização se expressa em forma de inseguridade laboral e de vulnerabilidade social; no aumento crescente do desemprego e do crescimento do mercado informal de trabalho; no desaparecimento de muitas ocupações e no surgimento de outras para as quais se exigem novas competências profissionais que resultam excludentes para grandes parcelas de trabalhadores na ativa; na imposição de novas formas de contratação e periodização (jornada parcial de trabalho, contrato temporário de trabalho, banco de horas, terceirização). Na organização das ações de saúde, os trabalhadores precarizados do campo da enfermagem são contratados apenas para dar uma reposta política imediata a uma necessidade específica da população em relação à saúde (campanhas ou programas sanitários de curta ou meia duração) não apresentando nenhuma resolutividade alguma nos processos de trabalho, trazendo uma insatisfação e aumentando as condições de precariedade.