Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
A ética da negociação diplomática Kiriri: mediação em relações de alteridade

*Fernanda Borges Henrique



No início do ano de 2017 algumas famílias do Povo Indígena Kiriri vindas do município de Muquém de São Francisco, região Oeste da Bahia, ocuparam uma terra de aproximadamente 60 hectares, no município de Caldas, região Sul do estado de Minas Gerais, Brasil. A terra, pertencente ao governo estadual, tem sido reivindicada como um lugar de morada para estas famílias, onde possam dar continuidade às suas vidas. Para este Povo, a construção de um território a partir da transformação do espaço em um lugar de vida parece estar intimamente ligada às relações de diplomacia estabelecidas entre humanos, Encantados e Ancestrais.
A diplomacia parece estar na ordem da vida Kiriri: usam-na com vizinhos para não criar confusão, também com o verdadeiro dono da terra, o Caboclo Ancestral Tapuia, que ali vivia há mais de cem anos, para que possam cuidar da terra e, em troca, ali permanecer. Usam-na, ainda, na relação com o estado de Minas Gerais, em intermináveis “mesas de diálogo e negociação”, também com seus Encantados, os seres vivos ou fenômenos da natureza que, quando desobedecidos, castigam o Kiriri indisciplinado com severas punições que variam de proibições a doenças. A troca está no centro da diplomacia e negociar com o outro parece ser o caminho oposto à guerra. Dessa forma, ao que nos cabe neste trabalho, pretendemos refletir como se dão o que chamamos aqui de ética da negociação diplomática estabelecida entre Kiriris, Encantados, Caboclos Ancestrais e o estado mineiro, afim de explorar uma forma de mediação em relações de alteridade.
As conversas entre humanos, não-humanos e ancestrais são realizadas em uma mesa que, no plano ideal, deve ser montada, em contato com o chão, dentro do Poró, também chamado de casa da ciência, sendo este o lugar específico para a realização do ritual da ciência Kiriri, em que, através da jurema, do alho e do fumo, podem entrar em contato com Encantados e Caboclos Ancestrais. Enquanto contavam sobre como acontece a mesa da ciência, a cena podia ser mentalmente vislumbrada: todos eles, sentados em torno da mesa, que fica no chão, concentrados, começam a cantar suas músicas. O Encantado Chefe da Mata, representante dos Kiriri na mesa, chega e ensina como a jurema deve ser preparada e como o alho e o fumo devem ser usados. Quando precisam de conselhos específicos, o Chefe da Mata pede licença e faz com que outros Encantados se manifestem. Ainda, quando precisam conversar com espíritos não-ancestrais, um Caboclo Ancestral ou um Encantado se manifesta no corpo daquele que tem o dom e manda chamar o espírito não-ancestral para que possam dialogar.
Enquanto falavam, a palavra representante ecoava. Isso porque, algumas semanas anteriores àquela conversa, o cacique Kiriri e sua esposa pediram para que eu os representasse em uma “mesa de diálogo e negociação” entre seu Povo, a FUNAI e o estado de Minas Gerais, que aconteceria na sede do governo estadual com o objetivo de discutir a questão da ocupação do grupo. Enquanto estava presente na “mesa de negociação e diálogo”, refletia sobre o papel de representante que me coube. E, ali, me dei conta que cumpriria uma função mediadora, em que deveria expor as demandas daquele Povo ao conhecimento dos agentes estatais.
As inquietações que surgiram a partir dessas duas experiências conectadas pela representação podem ser elucidadas se voltarmos ao processo histórico experienciado por este grupo. O povo Kiriri, assim como diversos outros povos indígenas do Nordeste brasileiro, tem sua história marcada pela violência do período colonial e pelo crescimento da pecuária no sertão nordestino em meados do século XVII. Estes grupos são conhecidos como segmento étnico marcado por diversos processos de territorialização, que supostamente levou à diluição de sua condição etnicamente diferenciada (OLIVEIRA, 1998).
Até meados dos anos 80 os Kiriri de Muquém de São Francisco viviam em Lagoa Grande, distando quatro quilômetros de Mirandela – a Aldeia Mãe do povo indígena Kiriri - localizada no município de Banzaê/BA. As lembranças da Lagoa Grande estão sempre presentes nas falas dos Kiriri. Basta que lancemos alguma pergunta sobre a Aldeia Mãe e logo somos tomados pelos acontecimentos da localidade onde viveram os mais velhos. Sabem, com clareza, da importância de Mirandela para as missões jesuítas iniciadas no século XVII e da presença fortemente marcada de portugueses: conflitos, que tinham como fundo a expansão da pecuária, marcaram a relação entre indígenas, jesuítas e a Casa da Torre da região. Após a saída dos jesuítas do Brasil, em 1758, Mirandela foi transformada em Vila e, como mostra Bandeira (1972), aos portugueses não se interessavam somente pelas terras da região, mas também a mão-de-obra indígena e, por isso, os Kiriri tiveram no senhor da Casa da Torre, seu maior inimigo.
No século XIX, como mostra (Dantas. Et. al, 1992), a transferência da Corte Portuguesa para o Brasil desempenhou importante papel para os grupos indígenas que habitavam o Nordeste. Ao longo do reinado de Pedro II, assumiu-se no imaginário dos índios a figura messiânica do Imperador e, por isso, muitos almejariam um contato direto com o monarca para que pudessem dizer de suas mazelas. Contudo, apesar de ser Pedro II o alvo principal dos índios, Dantas. Et. al (1992) nos mostra que juízes e escrivães locais, bem como agentes entre o poder central e o poder local “colocavam-se como intermediários das suas reivindicações”. Ainda, Bandeira (1972) mostra que o Serviço de Proteção aos Índios (SPI), após sua chegada em Mirandela, assumiu, para os Kiriri, um caráter messiânico e mediador entre os índios e o Governo. Dessa forma, ao distribuir ferramentas, medicações, roupas e outras dádivas provenientes do Governo, ente distante e poderoso, muitas vezes comparado à Deus, o SPI sustentou a confiança dos índios no órgão. Os Encantados também podem ser mediadores na relação com o Estado. Foi o caso, por exemplo, de quando os Kiriri tiveram presentes na primeira reunião da “mesa de negociação e diálogo” para discutirem com representantes do estado de Minas Gerais sua situação no Sul de Minas. Na quarta-feira precedente à reunião, os Kiriri estiveram em contato, através da ciência, com seus Encantados que lhes garantiram que a reunião com o estado seria tranquila para o grupo, já que falariam ao ouvido dos agentes estatais as mazelas daquele Povo.
Os exemplos acima citados nos colocam diante da diplomacia que deve ser estabelecida, com a atuação de um mediador em quem confiam, em situações de alteridade. Em um artigo publicado em 2011, Viveiros de Castro discute, em contexto Amazônico, de que têm medo os índios. O autor aponta que os grupos amazônicos riem e têm medo das mesmas coisas: “seres definidos por sua radical alteridade” (Viveiros de Castro, 2011:885). E, acrescenta, “esta é uma forma de medo que implica necessariamente a inclusão ou a incorporação do outro ou pelo outro como forma de perpetuação do devir-outro...” (ibid: 885). Inspirados por esta afirmativa, dispomos aqui que a ética diplomática Kiriri deve ser estabelecida para que consigam controlar, minimamente, o perigo que é viver em um mundo de alteridades.
Dessa forma, o estado, vislumbrado aqui como representantes do governo estadual, se apresenta também como uma alteridade. Allard e Walker (2016) mostram que muitas pesquisas antropológicas trataram de analisar como elementos da burocracia estatal foram incorporadas por diversas sociedades a ela expostos. Ainda, para Ramón (1996), em algumas dessas sociedades, vemos forças concretas e reconhecíveis, que têm sua origem no exterior, como, por exemplo, na colonização, atuarem em suas cosmologias. Nesse sentido, situação aqui apresentada nos é compreendida como um jogo de forças entre a experiência vivida no passado e sua cosmologia. A mediação, a qual necessitam os Kiriri do Sul de Minas na mesa da ciência com seus Encantados e Caboclos Ancestrais, assim como na relação com o Imperador no passado, com o Governo em tempos de SPI e, atualmente, com o estado de Minas Gerais, parece, assim, estar ancorada em relações de força a partir das práticas institucionais historicamente dispostas e experienciadas por este grupo e as categorias que compõem sua cosmologia.
Referências Bibliográficas
ALLARD, Oliver. WALKER, Harry. Paper, Power, and Procedure: Reflections on Amazonian Appropriations of Bureaucracy and Documents. In: The Journal of Latin American and Caribbean Anthropology, 2016, V. 21, Nº 3.
DANTAS, Beatriz G. et al. Os povos indígenas do Nordeste Brasileiro. um esboço histórico. In: CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). A história dos índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras: Secretaria municipal de Cultura; FAPESP, 1992. p. 434.
OLIVEIRA, João P. Uma etnologia dos “índios misturados”? Situação colonial, territorialização e fluxos culturais. In: Mana, vol. 4, n.1, Rio de Janeiro, abril, 1998.
RAMÓN, Pedro P. Animismo, colonialismo y la memoria histórica tzelta/. In: Revista Espanhola de Antropologia Americana. Serviços de publicaciones U.C.M., Madrid, 1996, V. 26.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. O medo dos outros. In: Revista de Antropologia, São Paulo, USP, 2011, V. 54, Nº 2.









......................

* Borges Henrique
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas . Pós-Graduação de Filosofia e Ciências Humanas . Universidade Estadual de Campinas - IFCH/UNICAMP. Campinas-SP, Brasil