O presente trabalho pretende abarcar 20 anos da história social do Brasil submetidos em dois momentos econômicos distintos: sob o regime neoliberal logo após o fim do bloco econômico socialista e sob a retomada das políticas do Estado do bem-estar social, tomando-se por base os índices sociais de uma cidade nordestina, Remígio, no agreste paraibano. Vemos a princípio (anos 1990) os dados brutais de um Brasil profundamente desigual, pautados em índices que exprimem miséria e indigência, com um salário mínimo ao redor de 70 dólares. A miserabilidade glauberiana descrita no manifesto do Cinema Novo nos anos 1960 reafirmava-se dolorosamente em números frios, sem o calor de uma esperança, de uma política pública viável e urgente, como a confirmar uma indigência crônica e sem saída, que persistia desde os mais remotos tempos da colônia. Os dados do IDH publicados curiosamente em um caderno da Folha de SP denominado "Eleições 1994" apontavam a cidade como modelo metonímico de um desafio social a ser superado. Como contraponto, o portal ODM ao apresentar a evolução dos dados do IDH permite observar uma curva ascendente de avanço em diversos indicativos sociais. Por exemplo, em 2010, no final do governo de linhagem social de Lula, o percentual da população de Remígio acima da linha de pobreza alcançou 60,52%; entre 1999 e 2011, a proporção de crianças menores de 2 anos desnutridas recuou de 23,7% para 2,4%; em 1991, o percentual de crianças que frequentavam o ensino fundamental era de 67%, passando para 92% em 2010. Se considerarmos no mesmo período o percentual de crianças que concluíram o ensino fundamental, o salto foi de 6% para 32%. Por fim, a taxa de mortalidade de crianças abaixo de 5 anos a cada 1.000 nascidos vivos decresceu de 61,5% em 1996, para 28,4% em 2010. Dados que refletem substancial melhora nos índices de desenvolvimento humano do município, entre a década de 1990 e a de 2010.
Uma percepção sensitiva e outra concreta sobressaem na dolorosa releitura do caderno publicado em 1991. No primeiro caso, com base nas relações cotidianas do mundo ao redor e nas informações colhidas em diversas fontes, sem uma verificação científica, a sensação de que houve uma saudável mudança, ainda que não completa, nas condições de acesso e cidadania das populações dos municípios menos favorecidos de nosso país, e aqui destacando em especial a região Nordeste, que deu um salto consistente de qualidade, não só considerando seus centros urbanos mais avançados, mas as regiões mais isoladas, em pleno agreste. A realidade descrita por Graciliano Ramos, filmada por Gláuber e pintada por Portinari, hoje, definitivamente, não é mais a mesma. A percepção concreta se escora em trabalhos sérios como o produzido por Walquíria Rego e Alessandro Pinzani, no livro "Vozes do Bolsa Família - autonomia, dinheiro e cidadania". Destaco da obra um trecho sugestivo, " (...) As pessoas não precisam mais passar seu tempo pensando exclusivamente em procurar comida suficiente e podem dedicar-se a atividades (inclusive econômicas) diversificadas. (...)".
Assim, torna-se indispensável retomar a discussão da desigualdade social, reforçando os avanços que tivemos, com a opção de uma política econômica que se orientou pelo bem-estar social, a partir de 2003. Hoje, a discussão atravessada, oportunista, que reverbera ruídos em torno das vantagens de um mercado soberano e de um estado mínimo, só pode comprometer os ganhos sociais conquistados no governo Lula e Dilma. O golpe institucional de 2016 recolocou a agenda neoliberal dos anos 1990 com mais força, indicando os caminhos de sua ação política, claramente voltada para a retomada autoritária de manutenção do poder. Significa dizer, preservação de privilégios a uma classe dominante majoritariamente branca, misógina, homofóbica e sem qualquer preocupação com os interesses nacionais. Em outras palavras, o alinhamento com os princípios do laissez-faire, o neoliberalismo, acreditando-se dessa maneira alcançar uma espécie de integração compartilhada, a modernidade sob os auspícios do mercado.
Espera-se, ao final da exposição, estabelecer os contrastes das políticas desenvolvimentistas do estado do bem-estar social, implantado no governo Lula, e as políticas neoliberais, implantadas nos governos Collor, Itamar e Fernando Henrique, nos anos 1990, tomando-se como referência os dados sociais da cidade de Remígio, Paraíba.