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Resumen de ponencia
INTERFACES DE UMA ESTÉTICA CONTESTATÓRIA: AS MULHERES NO CENÁRIO DO RAP NACIONAL

*Cleziane Santos De Jesus



Esta pesquisa propõe-se a compreender de que forma o rap de Lívia Cruz, Dory de Oliveira e Nega Gizza, representam a violência da vida cotidiana das mulheres nas suas letras musicais. São elas cantoras do rap nacional, com destaque no cenário brasileiro como cantoras desse estilo musical, evidenciando aspectos fundamentais das contradições do movimento hip hop e da luta das mulheres.
O rap apresenta, de forma marcante, a capacidade de verbalizar e denunciar aspectos do cotidiano de um seguimento populacional. Dessa forma, os artistas utilizam as letras de suas músicas para evidenciar, muitas vezes, as desigualdades sociais, o racismo e a pobreza em que vive a população negra, funcionando como um canalizador para a juventude reivindicar melhores condições de vida, conquistar direitos e espaços de lazer (SILVA, 2002). Esse estilo musical, é um dos cinco pilares do movimento cultural hip hop, cuja aparição remonta aos anos de 1960 e início de 1970 nos bairros negros e latinos de Nova Iorque, Bronx e Brooklin. No Brasil, o hip hop teve sua origem mais especificamente em São Paulo, nos encontros na rua 24 de Maio e no Metrô São Bento, no centro da cidade, de onde saíram muitos artistas reconhecidos até hoje.
Desde seu surgimento, o rap brasileiro transformou-se e hoje existem diferentes modalidades, fazendo com que novas tendências fossem introduzidas nesse cenário brasileiro, englobando diferentes atores sociais. No entanto, ainda é um segmento musical majoritariamente masculino. Lima (2005) afirma que mesmo não sendo notadas, as mulheres, desde o inicio, nos anos 1980, estiveram presentes na construção do hip hop paulistano. No entanto, a presença feminina nesse cenário sempre foi consideravelmente menor que as dos homens, fato que persiste até o momento atual. Comparando-se com as décadas de 1970 a 1990, a participação das mulheres no movimento tem-se expandido. A partir do início dos anos 2000, as cantoras passaram a integrar os grupos de rap em maior número, entretanto a elas cabia apenas cantar as partes melódicas das músicas. Posteriormente, na década seguinte, a mulheres passam a dar início a carreira solo, gerando assim uma mudança na participação destas enquanto cantoras de rap. Consequentemente, percebe-se uma transformação também nas suas canções, que muitas vezes tornaram-se distintas das composições feitas pelo rap masculino, tocando em temas que tendem a debater questões da sua realidade enquanto mulher. Deste modo, a discussão, nesse âmbito particular da música, adquire significado devido ao histórico machista, que é possível perceber principalmente nas letras de rap feitas por homens desde o início .
A arte, segundo Heller (1987), contém aspectos sociais importantes, pois é o resultado da capacidade humana de representar o mundo, como algo construído por eles mesmo, além de conter juízos e ideologias peculiares sobre a vida e a sociedade. Para Heller (1987), não há vida cotidiana sem arte. Desse modo, no conjunto heterogêneo do pensamento cotidiano estão presentes as condições preliminares e os germes de uma visão artística. Segundo a autora, em toda formação social existem expressões artísticas, como o canto, a música e a dança, sendo capazes de recriar aspectos centrais da vida cotidiana. Sobre a base das obras de arte, é possível reconstruir, de modo seguro, a ética e a imagem do mundo de qualquer época. Podemos analisá-las, nesse sentido, justamente porque é possível encontrar, nas expressões artísticas, o grau e a direção da individualidade de um momento histórico. Todo o processo de criação da obra de arte arrasta consigo aspectos originados da vida cotidiana, vivida e experimentada de um modo singular. A música é uma prática cultural, e, ao que tudo indica, presente em toda humanidade, expressando aspectos diversos da sociedade. A música pode funcionar como fonte de prazer, expressão de sentimento, canalizadora dos problemas sociais, sendo também objeto de estudo de muitos teóricos que se propuseram a pensar sobre as diferentes formas de representação na arte. Desta forma, a arte em geral, e a música, em específico, além de ser umas das mais importantes expressões humanas, estando presentes em diversos segmentos sociais, acompanhando a sociabilidade humana e suas transformações há milhares de anos, se tornando também um importante objeto de interpretação da sociedade.
O conteúdo estético da música, analisado a partir da relação entre subjetividade e objetividade, passa a ser observado, na época moderna, por teóricos como Lukács (1982) e Adorno (2011), a partir das mediações estabelecidas através da mimese social,nas quais estão imersas as sistematizações sonoras. Para Theodor Adorno (2013) e Georg Lukács (1982), há na música uma ligação mediado com a realidade social, vínculo esse que se desenvolve desde o momento de criação das obras e concretizam-se no seu conteúdo final, em sua completude. A mediação estabelecida entre a objetividade e subjetividade do artista será denominada de mimese artística para os dois teóricos. Apesar de concordarem a respeito da relação mediada na feitura da obra, os dois dão significados diferentes para a forma como se dá esse processo de síntese . Em Lukács (1982), a mimese assume um caráter de refiguração da realidade social, desse modo imprimindo nas obras as condições sociais correspondentes ao cotidiano vivenciado pelo artista. Já na abordagem teórica de Adorno (2011), a mimese assume a função de mediar os processos criativos do artista, mas não como uma cópia da sociedade contemporânea, numa espécie de representação simplificada.
A música popular negra emerge através de uma relação intensa com o cotidiano, através de agruras vivênciadas pelos sujeitos. Com isso, ela contém em sua forma/conteúdo uma presença marcante de traços sociais. Isto ocorre, por ser a música uma das poucas formas de expressão não interditada, permitindo assim a representação das desigualdades sociais às quais a comunidade negra está submetida. Isso acontece com o blues, o jazz, o rock,o reggae, o rap. Como sinaliza Gilroy (2001), a música constituiria uma das mais ricas formas de expressão, justamente porque mantinha vivo os terrores inefáveis da escravidão através do seu universo estético.
O estilo de musica spiritual, nascido pós independência nos EUA, constrói as bases para o surgimento do blues, do Jazz e do Soul, utilizadas para expressar o cotidiano do negro estadunidense. O rap, nasce a partir dessa influência do Soul e do Funk após estes sofrerem processo de industrialização, somado a influências jamaicanas ao adentrar o país, levando consigo formas para expressão dessa música. O rap, desde sua origem, prioriza aspectos do cotidiano da população mais pobre, sendo que seus temas representam ações que são fruto das experiências vividas de quem canta, dentre as músicas populares negras, sempre ganhou destaque pelo seu forte teor de contestação, e pela construção de uma música de desobediência social.
Apesar da musica de rap apresentar estes aspectos questionadores da realidade, numa espécie de abordagem marginal, existe uma contradição dentro do próprio movimento, que é pensar a questão do gênero, especialmente o papel subjugado da mulher dentro desse mesmo espaço. Essa subordinação é representado nas letras de forma que revelam os preconceitos gerados em torno do gênero feminino ao longo da vida. Apesar das mudanças significativas nas últimas décadas, o rap ainda funciona como um espaço que apresenta muita resistência ás mulheres. Mas, como já comentado, hoje existe um movimento forte no cenário do rap feminino em vários lugares do Brasil. Esse processo está relacionado à ascensão da luta das mulheres nessa última década, revelando contradições no interior desse espaço de resistência negra.
Nega Gizza, Lívia Cruz e Dory Oliveira são artistas com evidência nesse momento do rap. Apesar do destaque nacional, nota-se que a divulgação da obra é restrita. Cada uma das cantoras gravou um CD, na Humildade (2002), Muito mais amor (2013), Se perguntarem, diga que eu me chamo Dory de Oliveira (2016), das respectivas cantoras supracitadas, além de outras músicas que estão disponíveis na internet, mas que não foram gravadas em CDs. Serão analisadas, além das obras disponíveis nesses álbuns, as músicas de Lívia Cruz lançadas em 2017, disponíveis em meios eletrônicos.
A metodologia usada nesta pesquisa é a da decupagem, consistindo em recortar os principais fragmentos da canção, possibilitando uma análise detalhada dos elementos mais relevantes das letras nas composições das mulheres selecionadas nesta pesquisa. A análise aprofunda-se nos elementos que representam a violência da vida cotidiana das mulheres nas suas letras musicais, presentes nas composições do rap feminino de Nega Gizza, Lívia Cruz e Dory de Oliveira. Compreendida principalmente através da análise dos elementos estéticos que compõem a música, tais como a letra e os elementos sonoros.
A decupagem permite a identificação dos elementos fundamentais das músicas primeiramente, após fazemos a decomposição analítica dessas partes, que corresponde à análise dos elementos identificados, observando como representam a violência da vida cotidiana das mulheres nas suas letras musicais, a partir da análise dos elementos que forem destacados durante a decomposição. Por fim, inicia-se a fase de recomposição das canções, tendo como objetivo, desta maneira, reconstituir analiticamente a música em sua totalidade. Observando também histórico do artista, a análise do contexto social para entender as possíveis interferências do ambiente político e cultural que influenciaram suas obras, além dos elementos performáticos que contribuem para entendimento da música.






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* Jesus
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA UFBA. Salvador, Brasil