A epistemologia da ciência clássica, ainda hoje predominante, foi erigida sobre a premissa do dualismo cartesiano, sob o pressuposto da distinção fundamental entre natureza e cultura (N-C) (Comissão Gulbenkian, 1996).
Desdobra-se dessa separação, N-C, que o que é não-moderno está vinculado ao natural, ao tempo passado, à tradição, ao primitivo que age, no mundo, sob a fé e os instintos, e mistura as necessidades sociais às realidades naturais. Já o moderno opera a partir da razão, da ciência, da intencionalidade e considera-se capaz de controlar e de construir o natural, pois este está fora do humano e pode, assim, ser explorado e subjugado, na lógica de uma natureza administrada pela agência humana.
No contemporâneo, a relação homem-natureza passa por profundas transformações; as questões ambientais assumem a centralidade do debate e desvelam a “natureza” produzida socialmente; as práticas biotecnológicas modificam as formas de existência do humano. No estágio atual “a natureza não pode mais ser concebida sem a sociedade, a sociedade não mais sem a natureza” (BECK, 2011, p.98).
Amostras paradigmáticas da conexão N-C no contexto da saúde são as doenças infecciosas emergentes. A Encefalopatia Espongiforme Bovina, mais conhecida como doença da Vaca Louca, por exemplo, é uma doença causada por um príon que até os anos 80 tinha como reservatório exclusivo bodes, carneiros e cabras. A utilização das carcaças destes animais na alimentação do gado possibilitou a infecção destes, viabilizando que surgissem, em 1996, os primeiros casos da doença no homem (UJVARI, 2003). A emergência da pandemia de AIDS nas últimas décadas do século passado é outro exemplo. Gmerk (1995) propõe que, para além das mutações virais, processos de seleção, miscigenação populacional e novos tipos de relacionamento sexual, há inúmeras “coincidências factuais” que sugerem que os progressos biotecnológicos tenham alterado a dinâmica das relações ecológicas dos microorganismos nos corpos humanos e na associação destes com o meio, interferindo na distribuição e na frequência das doenças.
Esses exemplos impulsionam a reflexão sobre uma saúde que está sendo moldada na cultura e, frente a isto, um possível esgotamento das estruturas teórico-epistemológicas fundantes das ciências modernas; incitando repensar as bases da ciência clássica dominante, especialmente a demarcação N-C e suas derivações tais como homem-animal, ciências socias-ciências naturais.
A fragmentação das ciências ocorrida no século XIX e desdobrando-se no XX, manteve a “natureza” à cargo das ciências naturais, fundamentada em bases empíricas e leis universalistas; e “o social”, à cargo das ciências sociais, voltadas à historicidade do desenvolvimento urbano-industrial, das massas urbanas e a formação dos Estados-Nação (Comissão Gulbenkian, 1996).
O campo da Saúde Coletiva, no Brasil, é herdeiro desta fragmentação. Estruturou-se a partir dos anos 80 com base na crítica ao biologicismo e incorporou “o social” à compreensão das doenças forjando o conceito de determinação social do processo saúde-doença ancorado no referencial teórico-metodológico marxista e na análise sobre o processo de modernização “periférico” brasileiro (STOTZ, 1997).
Neste contexto e com base na perspectiva antropológica de Bruno Latour, assente na superação da demarcação N-C, intenta-se refletir sobre possíveis formas de compreensão das doenças infecciosas, pela ciência, a partir das categorias trazidas pelo autor
Opondo-se à visão científica do mundo moderno, Latour advoga pela radicalidade do postulado da antropologia simétrica tratando de forma equânime humanos e não-humanos. Rompe com a perspectiva humanista herdada do cogito decartiano, que coloca o homem à parte do cosmos, e propõe incluir “todos os seres que a cultura particular reúne em formas de vida prática” (Latour, 2016, p. 116): os deuses, os espíritos, os animais, as plantas, os instrumentos, todas as cosmologias.
Assim, com a irrupção dos híbridos, a compreensão dos fenômenos exige reconstituir os cosmogramas reintegrando as partes e explicitando as associações do cosmos múltiplo e heterogêneo, com a finalidade de liberar as ontologias variáveis. Para cada questão, há um público associado, não um único universo, uma concepção verdadeira; mas o multiverso. Para entender de que forma as diversas associações são estabelecidas, é necessário fazer a composição do multiverso, “calcular a multiplicidade de pontos de vista e de seguir as dinâmicas de suas transformações” (Latour, 2016, p. 172). Isso significa estender “às coisas” o mesmo peso que aos humanos, buscando compreender a forma com que os atores fazem emergir novos instrumentos, entidades e objetos, enfim, as diversas composições de mundo.
Para pensar o multiverso, Latour (2016) repensa a “natureza” e a forma universalista e imaginativa com que ela é tomada, “como um pano da tela sobre a qual se destacariam outros fenômenos - por exemplo, as culturas -...” (p. 185). Latour entende que a natureza deve ser tomada de forma aberta, como um elemento de ligação dos múltiplos seres e que participa da geração das multiplicidades de constituições dos viventes juntamente com as relações de significação entre os seres (LATOUR, 2016).
Latour explicita que o cogito realiza-se de forma coletiva e, portanto, propõe o cogitamus, pensar com e não sobre os seres viventes, pensar com o mundo e não sobre o mundo, construir com os “outros” as perguntas e respostas.
À luz dos pensamentos de Latour, reflete-se, aqui, que o objeto “coletivo” dos estudos epidemiológicos das doenças infecciosas não leva em conta todos os seres viventes em sua amplitude, considera apenas os humanos, e ademais em posição hierárquica superior. Também considera o “ambiente” de acordo com fatores físicos e biológicos, dentro da clássica tríade ecológica homem-agente-ambiente, rejeitando as associações interespecíficas existentes entre os seres e tomando o ambiente como “pano de fundo” pronto, estável, imutável, onde se dão as relações.
O objeto latouriano, entretanto, é o que emerge das relações, das experiências entre os seres no mundo, da situação (Marras, 2014). Neste sentido, não seria produtivo reconhecer as trocas entre os entes heterogêneos no contexto das doenças infecciosas?
A análise da doença/saúde transcorre sobre marcos científicos humanos modernos, com base em categorias como “sintoma”, “agente etiológico” e “hospedeiro”, por exemplo, que se mostram insuficientes para compreender as “novas” doenças infecciosas. Como explicar casos de HIV que se mostram totalmente “assintomático” em determinadas pessoas e “sintomático” em outras? Será que os mecanismos teórico-conceituais de apreensão dos “sintomas” são adequados? Essa categoria tem estreita relação com a experiência do humano, mas não só, pois é bastante influenciada pelo conhecimento biomédico que elenca determinada característica como negativa e indicativa de alguma “doença”. Colocando-a em perspectiva, não será possível “sintomatizar” de outras formas? Sob a ótica de outros seres viventes?
No ciclo de transmissão das doenças, os animais envolvidos são considerados como inimigos e o extermínio é a única “arma” considerada para lidar estas questões, haja visto o engajamento científico na “luta” contra o Aedes Aegypti por meio da fabricação de mosquitos geneticamente modificados ou pelo melhoramento das substâncias químicas para utilização nos fumacês. Quais serão as consequências da introdução destes mosquitos e destas substâncias? Estamos criando seres e, possivelmente, outros problemas para solucionarmos em um futuro próximo.
Marras (2014) afirma ser urgente “que se estabeleçam outras relações com os animais, outras relações com o que chamamos de natureza; (...), enfim, de alargar-se o contrato social para nele fazer entrar os não humanos”. Parece bastante interessante repensar a relação homem-animal a fim de ampliar o olhar sobre as doenças infecciosas.
Na contramão de formas de pensar que ampliem o horizonte científico, caminhamos na direção do investimento em modelagens matemáticas multicausais complexas que intentam dar conta de todos os possíveis fatores que podem provocar as doenças.
Conseguiremos apreender o multiverso a partir destes modelos? Não seria produtivo “redesenhar os cosmogramas”, como propõe Latour? Levar o princípio da simetria ao limite o que, neste contexto, seria dar voz aos múltiplos seres participantes dessas relações - vírus, bactérias, “agentes de propagação”, “hospedeiros”, “humanos” – e compreender suas associações a fim de fazer emergir seus pontos de vista, dar atenção aos seus devires.
Pensar com as categorias antropológicas da simetria de Bruno Latour expande as possibilidades da produção científica das doenças infecciosas e faz emergir uma multiplicidade de perspectivas, das mais variadas, em um campo em que se faz urgente reconhecer abordagens de outras dimensões do conhecimento.
Referências bibliográficas
BECK, U. Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade. São Paulo: Ed. 34, 2011.
Comissão Gulbenkian para a Reestruturação das Ciências Sociais. Para Abrir as Ciências Sociais. São Paulo: Cortez Ed., 1996.
GRMEK, M. O enigma do aparecimento da Aids. Estudos Avançados 9 (24), 1995.
LATOUR, B. Cogitamus: seis cartas sobre as humanidades científicas. Rio de Janeiro: Ed. 34, 2016.
MARRAS, S. Virada animal, virada humana: outro pacto. Scientiæ studia, São Paulo, v. 12 (2), 2014. p. 215-60.
STOTZ, E. N. A Saúde Coletiva como projeto científico: teoria, problemas e valores na crise da modernidade. In: CANESQUI, A. M. (Org.). Ciências Sociais e Saúde. São Paulo: Hucitec, 1997. p. 273-284.
UJVARI, S. C. A história e suas epidemias. A convivência do homem com os microrganismos. Rio de Janeiro, Senac Rio; São Paulo, Senac São Paulo, 2003.