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Resumen de ponencia
Classe(s) trabalhadora(s) e a cidade de Belo Horizonte/MG: formação de identidades e construção do espaço.

*Daniela Passos



Guiados pelas possibilidades de mudança social e melhores condições de trabalho, os operários da cidade de Belo Horizonte, no início do século XX, se nutriram de esperanças para lutar pela consolidação de seus interesses. Tendo à frente as associações classistas às quais eram filiados, os trabalhadores se lançaram rumo a um projeto de mudança e seguiram em busca da materialização dos seus ideais.
Diante da expressividade do fenômeno associativo entre os trabalhadores de Belo Horizonte, a pesquisa tem como objeto central refletir, com base na abordagem institucional, sobre as práticas de luta e reivindicações adotadas pela classe trabalhadora belorizontina, no contexto da construção da cidade, nova sede da capital mineira.
As questões que nortearam a pesquisa foram: como as associações trabalhistas conseguiram agir em prol dos interesses de um determinado grupo? Qual era a natureza das organizações trabalhistas, se meros recursos instrumentais de luta de interesses ou se já funcionavam como instituições sociais? Como elas procuraram resolver o problema da ação coletiva entre os trabalhadores belorizontinos? Em que medida a construção da cidade de Belo Horizonte (financiada e planejada pelo poder estatal) influenciou na construção identitária da(s) classe(s) trabalhadora(s)? Para ilustrar essas questões foram estudadas as ações das entidades fundadas na capital: Associação Beneficente Tipográfica, Liga Operária, Centro Operário, Confederação Auxiliadora do Estado de Minas Gerais, Centro Confederativo do Estado de Minas Gerais, Federação do Trabalho do Estado de Minas Gerais e Confederação Católica do Trabalho.
A hipótese geral ficou a cargo de pensar as associações trabalhistas como possíveis instituições que ofereceram benefícios especiais aos seus membros, ao mesmo tempo em que os estimularam a interagir com outros segmentos de trabalhadores em busca de ganhos coletivos de caráter mais geral.
A institucionalidade das associações trabalhistas estaria associada à capacidade delas em, de um lado, criar e manter recursos sociais entre os membros, e de outro, facilitar a organização da ação coletiva. Portanto, a referência central de análise nesta pesquisa foi pautada no ambiente social a partir do qual as necessidades das organizações/associações institucionalizadas se moldam e, neste processo, integram seus participantes individuais a comunidades mais amplas.
O contexto no qual se constituiu este trabalho está relacionado ao final do século XIX e as primeiras décadas do século XX (de 1893 a 1930), quando uma parte da sociedade brasileira, a classe trabalhadora especificamente, procurou ganhar força e voz na vida institucional do país. Assim, houve a tentativa de pensar a classe trabalhadora belorizontina como um fenômeno histórico ligado à vida política do estado mineiro.
No que se refere à metodologia da pesquisa, primeiramente foram delineadas as obras bibliográficas relacionadas ao estudo teórico. A mesma foi guiada por temas que envolvem o contexto sobre classe social, movimentos trabalhistas e modelos institucionais, além da analise de estudos relacionados às teorias sobre sociologia histórica.
Concomitantemente, foram analisadas as fontes primárias. A análise recaiu no estudo dos periódicos produzidos pelas associações classistas. sendo eles: O Operário (Liga Operária – 1900), O Operário (Centro Operário – 1903), O Labor (Confederação Auxiliadora do Estado de Minas Gerais – 1905), O Confederal (Centro Confederativo do Estado de Minas Gerais – 1907) e O Operário (Confederação Católica do Trabalho - 1919/1920).
Portanto, analisar as associações trabalhistas de Belo Horizonte como estruturadas em modelos institucionais é concebê-las como órgãos regulares que procuraram canalizar as ações humanas em prol da luta por melhores condições de trabalho e vida. Assim, o modelo institucional das associações proporcionou métodos pelos quais as ações dos trabalhadores se tornaram quase que rotinizadas, seguindo repertórios que levavam à solução do problema da ação coletiva.
Além disto, levando em consideração que a cidade de Belo Horizonte foi planejada e construída a partir da intervenção do poder público estadual, o modo de agir deste, para com os trabalhadores, foi voltado para a incorporação da classe no sistema político estadual. As associações, entidades e centros classistas de Belo Horizonte procuravam desempenhar uma relação amistosa com o poder público. Atuando através de métodos tidos como reformistas, desenvolviam práticas voltadas para a elaboração e envio de petições ao Congresso, ou mesmo através dos apelos e reclamações publicados nos jornais operários da época. Também tinham por meta a instrução dos trabalhadores, mediante a criação de escolas operárias, ou mesmo por meio de palestras e conferências. Para tanto, fundaram jornais de cunho operário, no intuito de expor os problemas dos trabalhadores e como meio de reivindicar melhores condições de trabalho.
Contudo, isso não que dizer que eles foram “cooptados” ou mesmo “manipulados” pelo poder público. Ao contrário, as associações se estruturando em modelos institucionais, quando recebiam apoio governamental para alguma de suas demandas, ficava claro que o Estado e a classe trabalhadora belorizontina se reconheciam como interessados na consecução de suas aspirações: os trabalhadores de verem realizados seus direitos e o poder público de obter a ordem e a harmonia social que tanto almejavam para a cidade de Belo Horizonte.
Portanto, o intuito desta comunicação é o de dimensionar, através de uma análise sócio-histórica, como as associações trabalhistas (pensadas a partir de modelos institucionais) de Belo Horizonte (cidade planejada e em construção) buscaram resolver o problema da ação coletiva ao tentar concretizar melhorias significativas para a vida e labuta dos trabalhadores no início do século XX.




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* Passos
Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG. BELO HORIZONTE, Brasil