Após a desintegração da União das Repúblicas Soviéticas Socialistas (URSS), a reestruturação política originou uma série de incidentes e complicações e demandou a reformulação da legislação no que diz respeito à cidadania e aos direitos sociais e econômicos das pessoas. Atualmente, o desemprego é um dos fatores que leva milhares de pessoas a procurarem por uma vida melhor em regiões distantes, principalmente, em grandes centros urbanos. No caso da Rússia contemporânea, a dicotomia entre os moradores locais e a população migrante, a pautação do convívio entre os "nós/ moradores locais" e os "outros/ vindos de fora" pela xenofobia e pelo preconceito é constituída em relação aos períodos históricos anteriores. A teoria de "etnicidade" elaborada no período soviético contribuiu para a "etnização" das relações e das diferenças sociais. E as políticas governamentais atuais (cotas que limitam o número de vagas de trabalho para os migrantes; registro residencial obrigatório, entre outros) podem ser interpretadas como fatores determinantes do cenário de exclusão social de migrantes e refugiados na Rússia contemporânea. A comunicação integra minha tese de doutorado em Ciências Sociais (UNICAMP/ Brasil), intitulada "Preconceito racial e xenofobia na Rússia contemporânea: os mecanismos de categorização étnica e a dicotomia entre 'nós' e 'outros'".
A Rússia e as ex-repúblicas soviéticas apresentam alto nível de intolerância em relação a migrantes e imigrantes. Embora este quadro seja comum em toda a Europa contemporânea, o contexto histórico, social e econômico de cada local específico determina o funcionamento peculiar das retóricas e das práticas de exclusão e de discriminação. Se na década de 1990 e início da década de 2000 a maioria dos migrantes que vinha para Moscou, capital da Rússia, pertencia às categorias de refugiados ou migrantes forçados (categoria específica existente na legislação da Rússia), hoje em dia predomina a migração por razões econômicas e a maioria dos migrantes e imigrantes é de trabalhadores temporários. A maioria dos migrantes econômicos vem para Moscou ou das ex-repúblicas soviéticas, principalmente da Ásia Central (mas também da Moldova, Ucrânia e Bielorússia) e, neste caso, assim como os migrantes da China, do Afeganistão, da Coreia do Norte e do Vietnã, são considerados estrangeiros; ou vem de outras regiões da Rússia, principalmente do Cáucaso Setentrional. Se na década de 1990 a presença de “outros” era relacionada à suposta ameaça terrorista, atualmente o fator que predomina é a falta de emprego, a situação social e econômica precária de uma grande parcela da população na Rússia contemporânea, e a insatisfação que muitas vezes se dirige aos “quem vêm de fora” está ligada ao fato de que estes, supostamente, ocupam os postos de trabalho disponíveis anteriormente para a população local.
Enfoco a análise, especificamente, no caso de população da Tchetchênia que, a partir da colonização, tornou-se vítima de constantes intervenções militares, sendo forçada a se deslocar para outros territórios do país. Os refugiados da Tchetchênia também foram e continuam sendo as principais vítimas de discriminação xenófoba e alvos de perseguição por parte dos grupos ou partidos nacionalistas, e por parte de alguns agentes do estado, como polícia. A partir de série de ataques terroristas cometidos na Rússia desde o início das guerras na Tchetchênia (1994-1996; 1999 – 2009), toda a população deste território tornou-se, no imaginário social, cúmplice ou ator de tais tragédias. Explano sobre os mecanismos midiáticos e políticos que possibilitaram a formação de imagem de um “inimigo tchetcheno”, e sobre as principais consequências deste processo.
O segundo grupo social alvo de xenofobia na Rússia contemporânea são os migrantes. Decorro sobre a transformação de processos migratórios a partir do fim da URSS e faço a análise de situação migracional atual, em Moscou e na Federação Russa. Apresento os resultados de trabalho de campo que, em grande parte, foi realizado na ONG Assistência Civil, em Moscou. Apresento, também, a visão de alguns pesquisadores da Rússia sobre a problemática de migração e de xenofobia.
Uma questão importante que contribui para a proliferação e a aceitação social de discursos xenófobos, na Rússia, atualmente, é a continuidade de presença da imagem de inimigo. A própria noção de inimigo ou inimigos foi (durante a URSS) e continua sendo, nos dias de hoje, uma das principais representações que moldam a identidade pós-soviética - uma identidade negativa que, segundo alguns pesquisadores, como Liév Gudkov, foi essencial para a reestruturação da sociedade pós-soviética.
Pesquisadores na Rússia, como sociólogo Vladímir Málakhov, afirmam que o racismo é a exclusão social e que o racismo e a xenofobia são um fenômeno da modernidade, junto ao capitalismo.
Para antropólogo Victor Shnirelman, do Instituto de Etnologia e Antropologia da Academia de Ciências da Rússia, tampouco, não há diferenças marcantes entre o racismo e a xenofobia. Ele destaca tipos diferentes de racismo: racismo cotidiano (bytovói), pautado pelas emoções e preconceito; racismo intelectual, a ideologia; racismo político, de movimentos e slogans; racismo institucional; racismo estatal, quando as afirmações racistas passam a constituir as leis. E salienta, ainda, que existem muitas sociedades, tanto contemporâneas, quanto no percurso da história, onde as relações sociais não são marcadas nem pelo racismo, nem pela xenofobia. Quanto à URSS, Shnirelman também aponta para a existência do racismo, citando as deportações de 1944. Ele escreve dos três traumas que contribuíram para o aumento do racismo e da xenofobia na Rússia contemporânea: o fim da URSS, a passagem para a economia de mercado e a piora de nível de vida, e, por fim, o aumento de migração.
Propõe-se, portanto, a partir das questões elencadas analisar a existência e as possíveis causas do aumento da xenofobia e do preconceito racial na Rússia contemporânea.