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Resumen de ponencia
O gênero da história: debates contemporâneos sobre as possibilidades, limites e embates das discussões de gênero no ensino de História.

*Caroline Cubas



Este apresentação tem por objetivo apresentar uma reflexão a respeito das possibilidades e desafios concernentes às relações entre gênero e ensino de História no tempo presente. Através de um exercício analítico, procuramos problematizar o caráter político que perpassa o ensino de história no Brasil, particularmente no que diz respeito as questões de gênero. Cabe-nos ponderar as escolhas que oficializam alguns eventos passados pois, concomitantemente, geram silêncios e esquecimentos. Para tanto, em um primeiro momento, nossa análise recai sobre as diversas reações advindas da presença de uma questão sobre Simone de Beauvoir em uma prova do Exame Nacional do Ensino Médio - ENEM - em 2015. Estas intensas reações serão aqui interpretadas como representativas de projetos políticos em conflito, referentes aos objetivos atribuídos ao ensino escolar. Em um segundo momento, deteremo-nos à análise de uma experiência docente, ministrada por alunos do curso de História da Universidade do Estado de Santa Catarina integrantes do Projeto de Iniciação à Docência - PIBID - em 2015. Tal experiência consistiu na realização de aulas-oficinas sobre gênero e história das mulheres, ministradas em turmas de nono ano do Ensino Fundamental. A resposta dos alunos às atividades propostas foram os elementos de motivação para as reflexões apresentadas a seguir.
Ao entendermos gênero como elemento conformador dos sujeitos históricos, é necessário demarcar que falamos sobre gênero por meio de conceitos que trazem consigo sentidos diversos e a partir de lugares generificados. Tratando-se do ensino de história, tais lugares são tanto a escola (através de seus currículos, práticas e espaços esquadrinhados) quanto a própria história escolar que, através da eleição de determinados conteúdos em detrimento de outros, oficializa o que é ou não socialmente importante a respeito do passado.
Existe um número relativamente expressivo de trabalhos que se dedicam a pensar as relações entre gênero e educação, especialmente no sentido de demarcar como as práticas e os espaços escolares atuam/atuaram no sentido de reafirmar percepções dicotômicas e naturalizadas a respeito de predicados atribuídos ao masculino e ao feminino. Ao tratar da escolarização dos corpos, Guacira Lopes Louro afirma a necessidade de se reconhecer que as imposições e proibições do espaço escolar tem efeitos de verdade e atuam na constituição de parte significativa das histórias pessoais. As reflexões sobre gênero e as especificidades do ensino de história, porém, são ainda escassas. Aquelas dedicadas a tal empreitada tratam, comumente, da indispensável tarefa de denunciar o silêncio e a ausência das mulheres na narrativa histórica e, especialmente, nos livros didáticos. Consideramos que a problematização dos recursos didáticos e a utilização de fontes seja um caminho possível para a desconstrução de estereótipos e binarismos, tal qual indicado por Jaqueline Zarbato. Para a autora, a investigação dos materiais utilizados na prática docente possibilitam problematizar, nas aulas de História, as diferentes abordagens sobre a "relação entre homem e mulher, sobre as vivências e histórias de homossexuais, de transexuais, enfim, fundamentar discussões para além dos elementos de heteronormatividade."
Como proposição, pensamos em um ensino de história que trate o presente não como resultado de um único processo (formado pelos eventos comumente abordados nos currículos escolares), mas como múltipla potência de passados diversos. É preciso abrir mão do caráter erudito atribuído ao conhecimento histórico e percebê-lo efetivamente como uma maneira particular de pensar. Para tanto, é preciso trazer a tona passados que relativizem nossas certezas. Passados estes que ampliem nossas percepções acerca dos diferentes modos de ser, viver e conviver. Cabe-nos, assim, explicitar que a forma como fora cristalizada a história, ao mesmo tempo em que nega às mulheres (e não apenas a elas, é importante ressaltar) a possibilidade de reconhecimento com o passado, impõe aos homens (como espada de dois gumes, pois traz consigo a possibilidade da glória e da lamúria) a exclusiva responsabilidade pelo presente que temos. Para aquelas e aqueles que escapam a esta lapidação, não se trata apenas do silenciamento de vozes passadas, mas do cerceamento das possibilidades de orientação para o futuro. Este trabalho assume como pressupostos teóricos a História do Tempo presente e dialogo com elementos do campo da Didática da História.




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* Cubas
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Florianópolis, Brasil