O interesse pelos estudos de juventudes, nas últimas décadas advém de preocupações com os rumos que se apresentam para os jovens, cada vez mais alijados do mercado de trabalho e vulneráveis aos apelos do ganho fácil de dinheiro a partir de sua coragem peculiar frente aos perigos da vida. Muitos programas são formulados por organismos de cooperação internacional, governamentais e de ONGs, dirigidos especificamente às crianças e jovens. Talvez, por trás disso haja uma forte consciência de que o mundo necessita mudanças, câmbios, nos modelos de sociabilidade desgastados pela corrupção, pela desigualdade abismal, excesso de ganância e de individualismo.
Há menos tempo o interesse pelos jovens indígenas suscita programas oficiais (encontros, oficinas, congressos) e diversas instituições empenham-se em promover a participação de jovens nos encontros indígenas, nas articulações políticas, nas feiras e festivais esportivos e culturais. Mas, e os jovens, o que pensam, o que querem, quais são suas expectativas, seus desejos e por quais causas estão dispostos a lutar, são perguntas que são feitas apenas em enquetes acadêmicas.
A problematização da relação entre participação política e reivindicação de direitos, leva a pensar até que ponto essas reivindicações, transformadas em políticas públicas ensejam maior ou menor engajamento nas articulações políticas. O contexto da reflexão proposta é a inserção da juventude indígena no cenário político dos movimentos indígenas e da vida em cidades. O ambiente urbano tem sido espaço de conquistas de direitos e ampliação da consciência sobre o lugar do indígena na sociedade brasileira e romper as barreiras do acanhamento e do silêncio imposto ao longo da história colonial. Espaços urbanos, historicamente, sempre foram lócus de invisibilidade para a população indígena na realidade brasileira. No entanto, desde as últimas décadas do século XX, quando ocorrem uma série de transformações no cenário político, a emergência da democracia tem sido o fator mais favorável ao rompimento da invisibilidade dos povos indígenas, em âmbito nacional.
O movimento indígena que tomou corpo na década de 1970, explode nos anos 1980 protagonizando os capítulos referentes aos direitos indígenas, inéditos até então. As lideranças formadas a partir dessa forma de participação, criam modos de articulação investidas em associações e diversos formatos de ação política. A partir daí a presença indígena transforma as cidades em local de afirmação de direitos indígenas, seja porque as sedes das associações passam a possuir endereço urbano, seja porque as manifestações coletivas realizam-se nas capitais, incluindo a capital federal, ou nos centros urbanos regionais.
Por outro lado, os antigos e mais recentes moradores indígenas das cidades, antes escondidos e invisíveis, passam a participar dessas ações políticas e criam suas próprias articulações. Constroem uma pauta urbana para os direitos indígenas, cujas principais reivindicações são: moradia, educação, saúde, trabalho e geração de renda. Nas principais capitais do Brasil e em muitas outras cidades os sujeitos políticos indígenas têm ampliado conquistas efetivas que merecem uma análise detida. Em contexto urbano vão, aos poucos, mostrando autoconfiança para sair do seu bairro e galgar posições nos movimentos políticos, nas universidades e nos empregos onde possam auto declarar-se indígenas.
A participação dos jovens nesse processo trilha um caminho rico e diversificado. São os jovens que possuem mais facilidade para aprender ler e escrever, tornando-se assim o braço direito dos líderes mais velhos na luta política e no domínio dos interstícios da burocracia estatal. Passaram a ocupar os cargos nas associações e se apropriaram das gestões que os desafiaram: gestão de recursos financeiros, ambientais, educacionais, de saúde, de estatutos, enfim tudo o que implica a participação política e a conquista de direitos.
As reflexões a respeito de alguns aspectos podem contribuir para a compreensão do contexto no qual os jovens indígenas estão envolvidos e para os quais são chamados a participar.
Demanda por educação – especialmente por ensino superior. Há diferenças entre os países latino-americanos: intelectuais indígenas em México, Peru, Equador, são presentes na vida acadêmica, na produção literária e outras expressões. Em outros países ainda se luta pelo reconhecimento e pelo acesso à educação.
Políticas públicas – demandas por políticas sociais, culturais, educacionais, de saúde e benefícios sociais, envolvem, crianças, jovens, adultos e idosos.
Demarcação de terras – reivindicação comum a todos os povos do, em maior ou menor grau de envolvimento, requerem a participação ativa dos jovens, em diversas situações. Os exemplos são inumeráveis.
Presença nas cidades – enquanto para muitos povos as cidades são ambientes tradicionais, palco de disputas coloniais (veja-se por exemplo, que o patrimônio histórico em América Central e Andina se divide nitidamente entre construções coloniais, espanholas e portuguesas e sítios arqueológicos indígenas – uma distinção a ser melhor analisada). Em outros países, como Brasil, as cidades foram locais vedados aos indígenas, sendo sua presença uma forma de clandestinidade. A conquista dos espaços urbanos é recente e representa, atualmente, lugares de conquista de direitos e reconhecimento político, com protagonismo dos jovens. Por isso, é importante construir uma articulação entre pesquisadores indígenas e não indígenas, acadêmicos, militantes e membros de movimentos populares, através da participação em eventos, congressos, seminários, para socializas as palavras com vistas a projeção de uma ética da diversidade cultural e pluralismo pós-colonial.
Expressões culturais – a produção cultural dos jovens abrange as artes de todos os tipos: cênicas, plásticas, artesanais, literárias, visuais e musicais. Há expressões musicais características – rap por exemplo, festivais de cinema e produções áudio visuais. Assim, as políticas culturais dos povos indígenas, seus desejos e expectativas, impõem-se perante as políticas culturais criadas oficialmente para eles.